por: Ana Fernandes
data: 10 de outubro de 2001
 

Ana Fernandes - Como foi a sua formação?
Fabiano Xavier - Eu fui admitido na UFBA em 86 pelo vestibular, cursei três semestres na FAUFBA, até meados de 87. Em 87 eu me transferi para França, Paris. Passei este ano fazendo praticamente curso de língua francesa para me preparar para Universidade. Em 88 eu ingressei na Escola de Arquitetura de Paris Belleville, UP-8.
Eu fui admitido em segundo ano, sendo que com duas dependências do primeiro. Eles me deram três quartos do primeiro ano como equivalentes. Eu cursei 88, 89,90, 91 e 92 em Paris-Belleville. Em 93 eu voltei ao Brasil para fazer meu trabalho de final de curso, porque eu queria uma temática brasileira, já que eu tinha intenção de voltar ao Brasil. Meu retorno foi no final de 93, e durante o ano de 94 eu preparei meu projeto e a minha monografia, baseado no Centro Histórico de Salvador, basicamente o projeto de reutilização da Escola de Medicina, e a monografia em cima do estado da questão teórica dos Centros Históricos. Em se tratando de monografia, não era um trabalho original.
Eu voltei à França em janeiro de 95 para defender em fevereiro, retornando ao Brasil no início de Março. Em abril fui empregado pela primeira vez. Eu mandei dez currículos para dez escritórios que eu escolhi em Salvador. Dos dez eu recebi resposta apenas de um, que me chamou para entrevista. Sai empregado da entrevista, mas os outros nove não fizeram nem contato. E isso é uma coisa tradicional na cidade de Salvador. Raramente as pessoas respondem a entrega de currículos. Eu já tive ocasião de fazer seleção várias vezes e é impressionante como as pessoas não têm esse hábito de agradecerem, ou de terem um banco de currículos. Não dão resposta nenhuma.
Então comecei a trabalhar na TGF Arquitetos. A TGF é um escritório que tinha na época quase 30 anos. TGF é Tavares, Gomes e Frank. Pertencia a Jader Tavares, Oton Gomes e Fernando Frank. E nesta época, em 95, tinha acabado de sair Eduardo Brandão, que era associado do Fernando Frank. Eles desfizeram a sociedade e eu entrei basicamente numa reestruturação que houve dentro do escritório. Entrei como arquiteto recém-formado apesar de ter feito dez anos de faculdade. Eu comecei em 86 e me formei em 95, portanto foi bastante longa a minha formação.
A TGF é um escritório que trabalha basicamente com o mercado imobiliário em cima de dois ou três grandes clientes, que na época eram a Construtora Suarez, Andrade Mendonça e mais alguns clientes menores, mas sempre baseado em mercado imobiliário. Mercado imobiliário basicamente de luxo. Havia um direcionamento de produto dentro do escritório. Com um bom padrão, ótimo detalhamento de projeto, já que tinha um acervo de trinta anos de projeto, um banco de detalhes muito grande. No escritório se desenhava muito, desenho a mão. Se detalhava à escala 1:1, se detalha apartamento na escala 1:20.

Ana Fernandes - Isso tudo é dentro do próprio escritório? Com quantas pessoas?
Fabiano Xavier - Dentro do escritório, com equipe própria. A equipe durante o tempo que esteve lá variou de sete a quinze pessoas, com uma média de sete a oito arquitetos normalmente. A estrutura é muito enxuta, tem apenas uma secretária e um boy., o resto são desenhistas e arquitetos. A partir de meados de 96, com um ano, eu passei a coordenar o escritório. Permaneci como coordenador até 99. Foram três anos de coordenação, dentro dos quais tive uma quantidade de bons arquitetos que passaram por lá. Não é um escritório de grande rotatividade, sempre empregou bons profissionais e pagou bem. Então, eu diria que foi uma boa época no escritório. A minha saída coincidiu mais ou menos com uma crise de um dos maiores clientes, a Construtora Suarez que acabou gerando algum problema de "caixa" no escritório. Houve redução de equipe, mas a notícia que tenho é que o escritório já se reestabilizou, após redirecionar a clientela.
Bom...após essa passagem pela TGF, onde a gente desenvolveu vários projetos grandes, inclusive em São Paulo, o que foi para mim um início de carreira muito bom. Primeiro pela possibilidade de interagir com os melhores profissionais da cidade de Salvador. Na área de estrutura trabalhei praticamente com todos: Ney Cunha, Leite e Miranda, Carlos Strauch. Também na área de projetos complementares com profissionais como Talles de Azevedo. Basicamente é um escritório que sempre trabalhou com os melhores. Com Olavo na parte de acústica, com bons projetistas de ar condicionado e de projetos complementares.
Então, essa minha passagem lá foi um complemento de formação muito interessante. Eu que vinha de uma formação muito teórica na França. Teórica mas com uma concentração grande em projeto, de prática de projeto, de desenho na prancheta mesmo. Eu venho de uma escola que tinha duas linhagens (correntes teóricas). Eu tive professores que trabalharam com Louis Khan nos EUA, e uma outra linhagem Neo-Corbusiana (Neoplasticista). Eu cursei alguns semestres com professores dessa linha. Mas era uma escola que tinha uma exigência muito grande em cima do projeto, do desenho e da intenção do projeto. Vindo para o Brasil, pude trabalhar num meio profissional diferente, diverso, pois não se tratava de um escritório de autoria (costumo chamar de arquitetura de autoria). Era um escritório com objetivos mais comerciais, embora faça uma arquitetura de boa qualidade técnica. E isso me permitiu um complemento bom da formação universitária.
Em 1999 eu resolvi fazer uma guinada na minha carreira. Um pouco pelo fato de estar 4 anos e meio no mesmo lugar não via ainda a possibilidade de partir para um vôo solo. O mercado estava acirrado e competitivo e as iniciativas individuais são difíceis, principalmente para os arquitetos já inseridos depois de 4, 5 anos. Acho que a iniciativa individual é mais fácil para o recém formado, mas ela vai ficando paulatinamente mais difícil à medida que você vai se relacionando dentro do mercado. E ocorreu uma oportunidade de uma empresa francesa, multinaciona,l que trabalha na área de iluminação, que é uma subsidiária da EDF (Éléctricité de France), uma empresa muito grande, maior grupo de energia do mundo atualmente. E por um acaso do destino a CITÉLUZ que é a empresa que se ocupa da área de iluminação da EDF estava abrindo uma filial no Brasil, no Rio de Janeiro. Esta filial do Rio de Janeiro por sua vez tinha aberto uma filial na , por conta de alguns projetos que foram iniciados aqui : a iluminação do conjunto da Praça da Sé, e havia necessidade de um arquiteto que falasse Francês. A empresa me fez uma proposta, na época, financeiramente equivalente ao que eu ganhava, e com uma proposta de formação, treinamento e algumas outras vantagens que eu considerei boas na época. E efetivamente são três anos que eu estou na CITÉLUZ. Eu entrei como arquiteto projetista,fiz minha formação de "Lighting Design", projetei muitos projetos de iluminação de monumentos. O final da minha graduação foi voltado para área de patrimônio. Então eu pude projetar algumas iluminações de monumentos tombados, fiz acompanhamento de obra, fiz estágio na França e hoje sou Gerente de Projeto da CITÉLUZ. Nós vínhamos com uma equipe de projeto de iluminação e de urbanismo iluminotécnico de nove pessoas até agora, mês de agosto.

Ana Fernandes - Essas pessoas vieram de onde?
Fabiano Xavier - Nós tínhamos uma francesa que veio como multiplicadora, foi a primeira. Trabalhou como minha gerente no início, que por coincidência agora está retornando à França. Ela cumpriu a etapa dela de multiplicação aqui, depois nós começamos... Eu selecionei um aluno em final de curso e um recém-formado que nós incorporamos. Um durante oito meses como estagiário e o Adriano Mascarenhas, que ficou com a gente sete, oito meses, como arquiteto pleno. Com a chegada do racionamento de energia a gente teve que fazer restrição no quadro de pessoal porque essa área de urbanismo luminotécnico e iluminação de monumento praticamente virou um tabu, e a gente resolveu "levantar o pé" do mercado, para não criar constrangimento. Principalmente porque até nas áreas em que o racionamento não teve uma ação decisiva, por exemplo, no Sul do país, (a empresa trabalha no Brasil todo, do Rio Grande do Sul a Manaus) começou a haver um entendimento moral da questão do racionamento, as pessoas mesmo podendo tinham essa dificuldade, constrangidas, principalmente em Porto Alegre, onde a gente tinha vários projetos em andamento e a prefeitura do PT achou que era uma exposição desnecessária e resolveu suspender os projetos até a retomada da normalidade no país.
Na CITÉLUZ eu tive várias atividades. O objetivo da CITÉLUZ é iluminação urbana. O produto da empresa é gestão de iluminação urbana, isso é compreendido como uma concesão, uma terceirização da iluminação pública municipal, para uma empresa especializada, com contratos de longa duração de cinco anos, baseado em metas de qualidade em que há um controle direto, por parte da prefeitura, através de um sistema informatizado, do que é feito. Este é o produto grande da empresa.

Ana Fernandes - A iluminação pública é paga através de taxa que a Coelba recolhe (aqui em Salvador). O gerenciamento desse setor passaria a ser feito pela CITÉLUZ? Como é essa relação Prefeitura x Coelba?
Fabiano Xavier - O caso da TIP, Taxa de Iluminação Pública, é um caso controvérso. Existem diversas modalidades de aplicação da TIP, em diversas cidades brasileiras, mas existe o problema do questionamento da constitucionalidade da TIP. Isso está entrando em discussão no Senado, tem um projeto no congresso. No caso de Salvador, existe um convênio entre a prefeitura e a Coelba. A coelba recolhe a tip na conta de luz e repassa para a prefeitura. A coelba não presta serviço de manutenção de iluminação pública.

Ana Fernandes - E quem faz isso?
Fabiano Xavier - Atualmente em Salvador, existem três empresas responsáveis pela manutenção, a que a gente chama de manutenção tradicional. O gerenciamento vem a ser mais que a manutenção tradicional, porque ele incorpora as atividades de planejamento, as ações de manutenção, de prevenção e ele incorpora os critérios de qualidade, com a possibilidade de aplicação de multas por parte do contratante.
Como é que se passa a nível mercadológico? Houve uma mudança na constituição. A nível constitucional a iluminação pública passou a ser atribuição das prefeituras e, até então, haviam vários quadros: ou as concessionárias tinham a concessão da iluminação pública, ou algumas prefeituras tinham serviços próprios como por exemplo a do Rio de Janeiro, que tem uma empresa municipal, a Rioluz ou São Paulo (ILUME), que também tem uma empresa. Esse quadro começou a se alterar com o processo de privatização das concessionárias, porque a iluminação pública é deficitária para as concessionárias e as prefeituras não são muito bons clientes, não muito boas pagadoras. Então havia essa relação de amor e ódio. Com a privatização, principalmente os grupos estrangeiros que vieram para o Brasil consideraram que não mais interessava manter essas relações. Porque o negócio das concessionárias não é fazer iluminação pública, é vender energia. Existe uma contradição. Nesse meio tempo houve também a criação do processo que é o programa de financiamento através da Eletrobrás. E há todo um movimento em prol da modernização do mercado do Parque de Iluminação Pública Brasileira, também muito em necessidade de economia energética. O movimento começa em torno da economia energética. E a ele a empresa (Citéluz) vem agregar uma proposta de consciência energética com qualidade de serviço.
Onde entram os arquitetos nessa história? : qualidade de planejamento e qualidade estética, ou seja, a criação de uma imagem noturna da cidade. E isso é um ramo de planejamento urbano noturno, que envolve ferramentas próprias, planos diretores de iluminação, que é o produto que a gente vem tentando desenvolver.

Ana Fernandes - A CITÉLUZ está no Brasil desde quando?
Fabiano Xavier - A CITÉLUZ está no Brasil desde 98, é bastante recente, sendo que o primeiro ano deles de experiência no Rio de Janeiro foi muito malfadado. O começo das atividades com algum sucesso foi no início de 99, muito em função do que se conseguiu na Bahia e algumas experiências que a gente conseguiu levar "a cabo" em Fortaleza, pois só agora é que as atividades estão começando a tomar um rumo de um Planejamento Urbanístico.
Como é que se consegue trabalhar "isso"? Evidentemente que é contratação pública, porque a atribuição da iluminação pública é da Prefeitura. Então a dificuldade é a transição do modelo tradicional, que é quando a manutenção da iluminação pública ainda é assegurada pela concessionária, que existe em vários lugares do Brasil, ou quando a manutenção da iluminação pública é feita pela prefeitura seja por meio de uma empresa municipal, terceirizada que trabalham na base da ordem de serviço. É um mercado completamente novo esse mercado de iluminação para arquitetos no Brasil. Existe até uma associação de projetistas de iluminação, por incrível que pareça. ABAPILUM, que é presidida pela Ester Stiller, que é arquiteta, pioneira da arquitetura luminotécnica, que é diferente da engenharia luminotécnica. Há uma diferença da visão de engenharia de iluminação e da arquitetura, do urbanismo de iluminação, que consiste no agregar valor estético aos números frios do consumo energético. São muito poucos profissionais que trabalham com isso no Brasil. Você tem uns quinze escritórios no Brasil inteiro, sendo que a maior parte trabalha com iluminação predial. Basicamente no Rio e em São Paulo é onde já pagam pelo diferencial do projeto luminotécnico, já existe a necessidade de se agregar esse valor ao produto, atendendo ao fator de economia. O famoso "prédio inteligente", que não tem nada inteligente...

Ana Fernandes - A Ester Stiller ofereceu um curso aqui?
Fabiano Xavier - Ela é de São Paulo, já trabalha na área a trinta anos. Ela deu um curso aqui no último congresso do CREA. Agora, com relação a intervenção urbana...existe a intervenção pontual, a nível de monumentos e de espaços públicos...

Ana Fernandes - Ela não trabalha com isso?
Fabiano Xavier - Não só com isso, a Ester trabalha basicamente com predial. Ela é uma das que já fez algumas incursões individuais na área de urbanismo. Ela fez um projeto interessante da Av. Atlântica no Rio que não foi realizado, mas a atuação do arquiteto projetista nessa área em "vôo solo" é muito difícil, porque fazer diretrizes de projeto perante o poder público, ou ser apenas projetista de projeto individual é muito complicado. Então são poucos os que têm o objetivo de trabalhar a iluminação urbana, ou seja, a iluminação pública funcional mais a iluminação do patrimônio edificado e dos espaços públicos. É uma proposta global. E são propostas longas, não é apenas uma proposta de realização pontual, é uma proposta de realização a longo prazo, de planejamento, de investimento, ou seja, é um plano diretor, esse é o objetivo dessa atuação. Daí vem a indagação: " o que você vê em termos de guinada profissional?" É estranho que um arquiteto que trabalha com projeto, que é o que eu gosto de fazer, vá trabalhar com este tipo de intervenção setorizada. Uma intervenção de menor abrangência. A grande intervenção na CITÉLUZ para mim, é que eu consigo primeiro, fazer o projeto, negociar o projeto, realizar o projeto, ver o resultado e fazer minha auto-crítica em oito meses. Quando se trata por exemplo de uma edificação, o que não acontece no mercado de arquitetura tradicional, você vai ter sua ressaca moral quando faz um mau projeto, apenas quatro anos depois, normalmente. Então, a velocidade da prática é muito interessante, as ferramentas de simulação também, mas não sou fanático por informática...

Ana Fernandes - Você usa muito computador?
Fabiano Xavier - Minha equipe usa, eu uso lápis de cor. Eu continuo usando papel canson preto e lápis de cor branco. Porque a simulação informatizada da luz é bastante interessante para o leigo. Mas para quem consegue ver a luz, a gente pode desenhar ela sem o menor problema. Tem isso de interessante...é a "coisa" da luz para quem é arquiteto, é apaixonante, porque eu sempre projetei arquitetura assim, até mesmo pela influência da escola Khaniana, onde o espaço é a sua luz. Eu sempre projetei pensando na luz, e fazer iluminação artificial é fazer o contrário, o que é um pouco de colocar o sol de cabeça para baixo. É muito interessante você perceber como os objetos finalmente funcionam sob a luz. A gente tem essa oportunidade trabalhando em cima de uma realidade pré-existente. E eu diria que ajuda muito em termos de compreensão de espaço construído, distância, volume, de composição de fachada. Isso porque iluminação, também é compor, a gente seleciona, é uma bobagem pensar que não... Você seleciona aquilo que quer mostrar. O ato fundamental em arquitetura é você tomar decisão do que deve ser feito, por isso eu considero que é uma atividade arquitetônica plena. Inclusive a gente tem na Europa, apesar de ser uma produção independente, na França, em Paris, a gente tem alguns arquitetos conhecidos que gostam disso. O Italo Rota é um arquiteto que fez agora o projeto o projeto de iluminação da Catedral de Notre Dame, junto com outro arquiteto que trabalhou " O traçado das ruas de Paris".Bruno Fortier, este se dá ao deleite de fazer projeto de iluminação. Então é uma atividade interessante quanto a isso, mas estou em busca também nessa atividade de uma complementação daquilo que nos faz falta muito na escola que é a visão de um funcionamento de uma empresa. Uma coisa é um escritório de arquitetura nos moldes que a gente conhece. Dez, quinze pessoas, uma estrutura pequena, um faturamento de um determinado montante, outra coisa é uma empresa grande, uma multinacional, que tem plano de negócios, que tem planejamento de marketing, que tem objetivo mercadológico, que tem produto, defender qualidade, preço. Isso é muito importante. Eu aprendi a orçar na CITÉLUZ. Eu aprendi a fazer um orçamento físico-financeiro, eu aprendi a fazer proposta comercial. Eu hoje faço boa parte do trabalho institucional da empresa. Eu aprendi a trabalhar licitação. Tudo isso são ferramentas importantes para quem pretende atuar plenamente no mercado. Arquiteto que tenta ignorar isso, a não ser que ele faça aquela arquitetura autoral, de que eu te falei no início, mas que é reservada a uns muito poucos, encontra entraves a nível da própria subsistência. A tendência é : quem não dominar essa técnica de gerenciamento não vai conseguir exercer a profissão de modo condigno, vai continuar sendo jogado para um lado para o outro, na lógica do mercado, da contratação precária, da falta de vínculo, da falta de contrato, do projeto de risco e todas essas coisas que quem já trabalhou no mercado conhece.

Ana Fernandes - Você podia falar um pouco dessa situação de contrato de risco, falta de contrato...
Fabiano Xavier - Contrato de risco é uma excrescência que vem do mercado publicitário. Quem funciona com contrato de risco é o mercado publicitário. O "cara" faz a peça contando com o sucesso da veiculação. Como a veiculação rende um dinheiro imenso com relação ao investimento que ele faz, ele tem como assegurar essa lógica de fazer a peça. De cada três, quatro peças que ele faz o cliente aceita uma, vem e pula (veicula!), amortiza as outras. Isso começou, foi introduzido no mercado pelas incorporadoras, inicialmente com os escritórios que eram tradicionais prestadores de serviço, porque até certo ponto, eu considero que a depender do grau, que é normal você ter este tipo de compromisso de risco com um cliente tradicional, que lhe contrata para fazer dez projetos por ano. Não vejo mal de você fazer um ou dois estudos para ele verificar uma viabilidade, só que isso se tornou uma prática de pechincha, quer dizer: o estudo de viabilidade começou a virar uma maneira de você fazer vários projetos, colocar escritórios em concorrência, fazer mini-concorrências privadas e de preferência não pagar nenhum deles. Então começou nesta prática do projeto de risco e o grande problema é que o mercado absorveu isto ao ponto que os próprios prestadores de serviço, que prestam serviços para escritórios maiores, trabalham no risco. Eu não consigo compreender como é que as pessoas trabalham, e o tal " risco" é muito interessante, porque é um risco não remunerado, pelo seguinte: se fosse uma parceria, se o sujeito entrasse no risco com você, tudo bem. Mas ocorre o seguinte: se o meu empreendimento naufragar, se a gente não conseguir viabilizar "meu custo é meu, seu custo é seu": espetacular o risco. Se a gente conseguir viabilizar eu lhe pago aquilo que lhe era devido pelo seu trabalho: _ onde é que está a parceria mista? Não há! Não há nenhuma parceria mista. Ou seja, o risco é seu, e o benefício é da outra parte, sempre. Você não tem participação no benefício da outra parte pelo risco que você correu. Então é por isso que o risco é desigual, na realidade ele é uma sacanagem.(tá no Aurélio, pode botar)

Ana Fernandes - Quando você fala das pessoas subcontratadas, digamos, prestadores de serviços, você está falando de desenhistas?
Fabiano Xavier - Desenhistas, arquitetos recém-formados. Por exemplo um escritório maior pega um projeto no risco, chama um prestador de serviço também no risco e no final quando a coisa não vai para frente, fica todo mundo no prejuízo. Eu considero isso uma coisa absurda. Primeiro que a pessoa trabalha numa informalidade terrível, ninguém assina contrato de prestação de serviço, é muito raro neste mercadozinho do canetinha, do profissional que assina e que na verdade vai dar para o outro profissional desenvolver, ou vai dar para um desenhista técnico, que também já tem um acordo com outro profissional que assina. Quer dizer, a precariedade do mercado vem daí, a meu ver. Eu acho que é um dos grandes problemas. Tem a precariedade da contratação, tem a precariedade da remuneração, ou seja, o valor do serviço tá muito baixo, não dá para remunerar qualidade, então a qualidade da prestação cai proporcionalmente. Que vem a ser o famoso " projeto básico" , que não existe. Eu acho que quem é arquiteto sério não fala em projeto básico (que é o projeto de prefeitura, o projeto de alvará). É o esquema de áreas que corresponde ao estágio zero da arquitetura, que permite que as portas abram, que as pessoas passem e que os banheiros sejam utilizados. A arquitetura tá depois disto. Porque a grande maioria dos projetos de prefeitura não incorporam a estrutura que é abatida depois das áreas vendáveis. Mas é óbvio que se a estrutura não está incluída na área útil, depois ela é diminuída. Da mesma maneira que a estrutura não está, não estão as espessuras complementares de parede, decorrentes das tubulações, porque raramente você vê um shaft em projeto de prefeitura. As tubulações passam aonde? Elas passam em sobre-espessura. Então essa precariedade do exercício ligado a isso é que remete a idéia do "projetinho" simplificado : "olha, eu só faço até aqui". Por exemplo:" eu não detalho, eu não faço quadros de esquadrias, eu só faço esquema de telhado..." Ou seja, o arquiteto abdica do controle sob o produto porque a remuneração é baixa.

Ana Fernandes - Você acha que isso está acontecendo em todos os segmentos do projeto de edificações, ou está apenas acontecendo em alguns segmentos?
Fabiano Xavier - Não, acaba acontecendo em todos os segmentos. Até os escritório maiores, que desenvolvem o detalhamento, inclusive agora essa famosa compatibilização digital e as atividades ligadas a qualidade da construção como : paginação de bloco para não haver desperdício, paginação de revestimento cerâmico, que é um detalhamento a um nível de escala bastante apurado. Esse pessoal é pressionado pelo profissional que está um pouco abaixo e vai começar a oferecer o serviço, pelo mesmo preço. As construtoras começam a recorrer a empresas especialistas para cada particularidade dessas. Essas empresas trabalham em grande escala, por exemplo, eu tenho uma colega aqui da UFBA que tem um empresa em São Paulo, Cíntia Kamei, que foi pioneira em planta de bloco, paginação de bloco, enchimento por concreto, bloco de cimento modulado...
Desenvolver essas modulações para diminuir o desperdício. Ela tem uma empresa que só trabalha com isso. Ela faz : trinta, quarenta, cinqüenta projetos por mês, de paginação de bloco. Tem um escritório grande, com vinte, vinte e cinco pessoas. Então significa que o arquiteto de um escritório tradicional começa, ou tem que incorporar, para começar a ter uma equipe, uma estrutura gigantesca que ele não sabe gerenciar. Ou ele começa a sub contratar, ou ele deixa de oferecer. A pressão começa a ser essa, quer dizer : "tudo bem, dentro do que você está querendo me pagar eu não posso assumir todas essas horas de detalhamento". Como também as pessoas não trabalham pelas mesmas tabelas de honorários... A tabela que é usada em Salvador é muito diferente de São Paulo, fica muito difícil encontrar uma equação financeira, que permita ao seu escritório pagar encargos, é...contratar por salários dignos. Então o pessoal recorre à sub contratação informal.

Ana Fernandes - Em licitações, há referências a situações onde escritórios tradicionais, mesmo reduzindo seu preço a quase o preço de custo, perdem o contrato para equipes de jovens arquitetos oferecem preços muito menores. É possível desenvolver trabalhos dessa forma?
Fabiano Xavier - Não será possível, porque o jovem arquiteto não sabe fazer a projeção de custos, e ele sai da faculdade com a impressão que R$ 15.000,00 é muito dinheiro. Para ele é uma fortuna. Porque ele não tem um custo, não tem uma estrutura, ele não paga imposto, não tem quadros, ele trabalha em casa. Existe também essa virada do mercado, o pessoal que optou pelo "home-office", que tem um custo mais baixo, inferior ao daquele profissional está sendo instalado com estrutura. Então tudo isso pesa muito, nessa nova lógica do mercado. Então tem pessoas, ou grupo de pessoas que tem preço mais baixo. Agora, o grave é o preço mais baixo ser menor que o mínimo recomendado para garantir a remuneração condigna de um profissional com pelo menos cinco anos de formação universitária. Essa é a questão. Porque é o que tenho visto. Primeiro que tem muito arquiteto trabalhando como desenhista, o famoso faço, desenvolvo, e desenho... é o "cadista". Existe hoje essa inversão de que a arquitetura é o desenho, desenvolver em autocad, colocar as cotas, desenhar o rodapé. Porque o autocad permite desenhar a fechadura da porta, eu já vi desenhista desenhando buraco de fechadura em corte para depois o corte ser plotado na escala 1:100...essa perda do que é pertinente na escala do desenho, na representação. Porque quando você está desenhando na mão você tem o que é pertinente, o autocad não, ele não tem escala, a escala vem depois, pela impressão. Então as pessoas tem muita dificuldade nisso. Essa inversão, esse fato de muitos arquitetos terem buscado no exercício do trabalho de cadista, de desenvolvimentista de projeto, que é um trabalho que você faz em casa, por menos preço, por menos custo, e que lhe permite muitas vezes ter outro emprego. Então não é raro você ver no mercado arquitetos que tem um emprego precário e que fazem o "bico caseiro". Isso tudo é uma lógica: você tem o cara que trabalha na loja de móveis de cozinha, que é projetista de cozinha. Faz cinco anos de arquitetura para ser projetista de cozinha, que é remunerado por comissão, e que nas horas vagas desenvolve projetos para outras pessoas. Ou então que é funcionário público, que é fiscal da SUCOM, funcionário da SEPLAM. Quer dizer, todas essas precariedades somadas, criam a precariedade do serviço no mercado. Outra coisa que já falei com você e quero deixar registrado: o arquiteto é o único profissional liberal que não cobra consulta, isso eu acho uma coisa interessantíssima, que vem da questão do risco. Porque se você fecha a porta para o cliente que lhe procura, dizendo que você cobra, aí é que você não tem nada mesmo.
A minha experiência mostra que a quantidade de horas que se gasta com esse tipo de conversa com o cliente sem a menor idéia do que quer, do que precisa, que não recorre a um estudo prévio de programação. Mesmo as grandes construtoras atribuem isso ao arquiteto, e é um trabalho que não é remunerado. A gente acaba fazendo programação, estudo mercadológico, formata o produto e depois faz. A gente acaba fazendo isso ou sendo obrigado a reproduzir o modelito, a tipologia corrente do mercado. Então, essa questão de não cobrar, oferecer o conhecimento graciosamente é uma das questões. Todo mundo que é arquiteto já esteve numa mesa de bar em que alguém disse: "Não, pega aí esse guardanapo, faz um riscozinho aí para mim, que eu estou a fim de fazer uma casa". Quer dizer, ninguém chega para um advogado e diz: escreva uma petição aí, já que você sabe fazer e não vai lhe custar mais do que cinco minutos. Não é questão de cinco minutos. A gente não está cobrando cinco minutos, a gente está cobrando 20 anos de estudo, 20 anos de investimento, trabalho intelectual. As pessoas não têm noção de que trabalho intelectual não se cobra apenas por carga horária. O pessoal tem a tendência de dimensionar o trabalho por hora de prancheta, ou então por dor nas costas. Tipo assim: eu vou trabalhar 300 horas. Quanto é que vale 300 horas do meu esforço físico? Talvez meia hora do seu esforço mental. Então, são essas questões todas que são muito complicadas no exercício profissional. Principalmente em Salvador.

Ana Fernandes - Tentando uma crítica social: De que os arquitetos são de uma formação muito elitista, que eles não respondem aos problemas básicos da cidade, que portanto não tem mercado de trabalho... Bom, para mim é uma questão muito complicada, ela deve dar condição de enfrentar o conjunto de problemas e que muitas vezes esses problemas acabam sendo os problemas mais fáceis, talvez não mais fáceis do ponto de vista do investimento social. Mas do ponto de vista de você resolver programa de habitação popular é mais complicado entender antropologicamente como funciona aquele do que construtivamente. E vem uma série de críticas de que o arquiteto precisa fazer "isso" e "aquilo"...como você vê isso?
Fabiano Xavier - Primeiramente o arquiteto antes de estar engajado ele precisa comer, então eu falo muito uma frase do João Ubaldo Ribeiro que eu acho fantástica: "A necessidade é irmã da porcaria". Enquanto o sujeito não consegue o mínimo de estabilidade de sobrevivência, ele não tem como parar para pensar nas questões fundamentais da profissão. Ele não tem o direito da escolha. Essa questão do engajamento está muito ligada a como são contratados e como são definidas as políticas de ações engajadas. Eu acho que existe e pode haver uma atuação da sociedade civil arquitetônica através das entidades de classe, mas você querer que o profissional sozinho vá combater o problema da moradia... Ele pode eventualmente se ressurgir, escrever um artigo, organizar um movimento contra alguma coisa. Por exemplo: participar de discussões ligadas 'a legislação, combater uma implantação inadequada, em algum lugar da cidade, isso sim. Mas isso é exercício da cidadania do arquiteto. O que eu acho difícil, a tal questão do elitismo, não é opção do arquiteto. A questão do elitismo é que quem pode pagar arquiteto é a elite, e a gente também não vai querer se enganar... O Bernini já falava: "o arquiteto é praticamente um cortesão". A arquitetura sempre cortejou o poder. Pela simples razão de que sem dinheiro não se a faz (tirando algumas pequenas exceções)mas a arquitetura está muito ligada a grandes decisões de política pública, de mecenato privado. A gente não fique achando que Corbusier, Louis Khan, Mies Van Der Rohe, não se beneficiarem e ou não souberam se beneficiar dessas ocasiões para construir as grandes obras. Eu acho que teria uma quantidade imensa de arquitetos interessada em trabalhar com projetos sociais, estilo favela bairro, de equipamentos públicos, escola comunitária e tal, com inclusive tecnologia alternativa, com a condição que houvesse a remuneração mínima suficiente só para poder dizer assim : "Olha eu vou investir cinco, dez anos da minha vida só para fazer isso".

Ana Fernandes - Você acha que isso hoje se coloca como uma possibilidade de mercado de trabalho? Tipo ação com organizações não governamentais?
Fabiano Xavier - Eu acho que sim. Eu conheço alguns, na minha área especificamente que tem alguns programas de intercâmbio. Principalmente na área de eletrificação. Como algumas ONGS, que contratam técnicos por salários que permitem os técnicos irem para o interior da Bahia fazer eletrificação rural, quer dizer, que é um trabalho com amplitude social, se você quiser. Não é um salário de 600, 800 reais que a prefeitura paga para um arquiteto. Eu não consigo acreditar nisso apenas por engajamento social, não é possível você acreditar. E daí decorrem as coisas que a gente conhece do exercício da prática do emprego público.

Ana Fernandes - E o contexto da formação? Você acha que deveria haver uma atenção específica sobre isso?
Fabiano Xavier
- Eu acho que não Ana. O importante é mesmo as pessoas...eu cada vez mais me convenço...existe a necessidade do arquiteto saber em que mundo ele vive. Ter uma formação humanística, conhecer sociologicamente como é a cidade, a comunidade que ele vive, antropologicamente, e tal. Como se construiu o espaço histórico em que ele evolui. Mas eu acho que o essencial na formação do arquiteto é compreender a função do espaço. O nosso objetivo é construir espaço. E se esses espaços podem estar alicerçados em boas idéias e com uma amplitude social e alcance, mais uma coisa viabiliza a, outra. Se inviabilizasse a gente não teria tido 80% dessa arquitetura. Até mesmo porque a questão do uso da destinação social é tão efêmera, porque o uso acaba se diluindo, talvez até antes do final da vida do próprio arquiteto o uso já é outro. Se a norma do espaço que ele construiu não tem um valor espacial em si que permita ampla apropriação, ele falhou também. Então eu não acredito muito nesse caso.
Tem um evento interessante que eu queria falar... a gente tem em Salvador o o Emanoel Blamond... O Emanoel por exemplo, trabalhou com o Jean Nouvel muitos anos. Trabalhou no Instituto do Mundo Árabe que é uma obra interessante. Um arquiteto que vem de um grande "escalão". E aqui no Brasil fez um trabalho com a comunidade do Candeal. É um trabalho engajado? É, mas eu acho que foi muito mais por uma questão de oportunidade do que de opção. É um projeto interessantíssimo a nível de arquitetura. Agora eu não sei dentro da escala da mídia comum, se se vai conseguir evacuar essa concepção de que fazer arquitetura é fazer interiores, que é o que se vem expandindo de forma terrível. Está tendo inclusive essa confusão no mercado. Se a gente conseguir tirar isso e voltar para o objetivo da edificação, arquitetura de edificações como formação de espaços. Essa coisa da aparência é terrível. A gente está confundindo a película e o espaço. A matéria de trabalho do arquiteto é o que está dentro do espaço, não é escolha de mobiliário. O trabalho do arquiteto é o espaço que permite a proteção. Essa proteção pode ser variada. Esse direcionamento do mercado de interiores que eu acho que é um problema. E talvez aí esteja incutido a noção de elitismo. Evidentemente que só paga decorador quem pode.

Ana Fernandes - O que está acontecendo na Bahia é que, quando se vai fazer um empreendimento qualquer, em se tratando da indústria da construção civil, se pensa em ter os menores custos possíveis. Então a idéia de um arquiteto que não reproduza exatamente esse padrão, esse modelo, é considerado desperdício, sonho...
Fabiano Xavier - Tirando aquele pequeno diferencial "marqueteiro" de que cada projeto tem que ter a diferença mercadológica dele...

Ana Fernandes - Só que, no caso de edifícios residenciais, quando os apartamentos são vendidos, eles são literalmente demolidos. E se gasta quase o mesmo tanto se pagou por ele para fazer um outro...
Fabiano Xavier - Hoje eles já são projetados com a evidência de serem demolidos. Se você for ver hoje, o mercado já está oferecendo cinco opções de planta. A reforma já vem pronta, você personaliza antes. E que também já é decorrência do sucesso dos empreendimentos em condomínio. Então as construtoras tradicionais começaram a correr atrás porque elas perderam uma fatia de mercado para outras construtoras que trabalhavam em cima dessa lógica da personificação do projeto. A Arc engenharia que é uma empresa que hoje está bastante grande nasceu e cresceu assim. Agora ela entrou no mercado tradicional de empreendimentos. Mas ela vinha fazendo empreendimentos só para grupos de condomínios.

Ana Fernandes - Que está lançando um empreendimento na ladeira da Barra...
Fabiano Xavier - Mas ali já é consorciado com outra empresa. Não é o sistema de condomínio onde um grupo de condôminos compra o terreno contrata a empresa e vai fazendo a obra...Mas a gente estava falando da questão do interior. É impressionante, o cara compra um empreendimento de 100 mil e depois gasta 80mil na personalização do apartamento. E tem coisas que eu acho engraçadíssimas. Eu defendi algumas posições na época que eu estava trabalhando com isso, que eu até gostaria de falar, eu acho interessantíssima. A gente chegou a um ponto, você veja como são os costumes, a força da estrutura social. A classe média, média baixa, é a compradora do apartamento pequeno de 2, 3 quartos. Então o mercado imobiliário inventou o segundo quarto ou terceiro quarto reversível, que é o quarto da empregada... essas áreas desses quartos vieram sendo reduzidas ao longo dos anos. Não sei se alguém já fez um estudo sobre isso, mas lá no escritório do Fernando Frank ele tem um acervo de plantas de lançamento, quase quinze vinte anos. Um dia eu fiquei olhando como as áreas, mesmo dos prédios de luxo foram caindo. Você chega a ter na Vitória a quarta suíte com onze metros, e não raro você vai encontrar nesses edifícios de dois quartos três quartos, estilo Stiep, Imbuí, esse tipo de imóvel, a suíte máster com doze ou onze, o segundo quarto com dez, o terceiro com nove. E por outro lado o famoso quarto de empregada que está preso a área mínima de cinco metros quadrados, que quando o cara não consegue arrumar ele no reversível e fazer ele virar aquele gabinetezinho, representa uma área de 5 m² que o sujeito de classe média paga para manter a famosa dependência de empregada. Porque apartamento sem dependência não vende. Como se a gente tivesse ou fosse fazer perdurar a figura da empregada. E o mercado não tem a coragem de fazer o apartamento sem a dependência, só faz o flat. Existe possibilidade até dentro daquele esquemazinho dos sessenta e poucos metros quadrados de três quartos, de você melhorar a qualidade de vida. A multiplicação dos banheiros também. Eles ficaram tão reduzidos que se tiver duas pessoas uma tem que sair para outra entrar. Então qual é o objetivo de você Ter essas mini-celulazinhas? Nem o convívio de um banheiro existe mais! Não se pode dividir mais nada. Aí é que vem o trabalho do decorador. O decorador se beneficia dessas desigualdades. Um cidadão normal com um quarto de 14m² não precisa de um decorador. Ele mesmo vai na Insinuante, compra um armário daquele igual o da casa da avó dele, compra uma imensa cômoda, coloca a televisão...aí cabe tudo! Só que quando ele vai morar no Imbuí, no apartamentozinho do quarto de 10 m², ele não consegue mobiliar o quarto. E quando ele começa a necessitar do profissional que vai dizer: "não, você vai inverter a abertura de sua porta, vai tirar essa porta, por uma de correr, encostar sua cama na parede e fazer um beliche, triliche..." Aí começa essa lógica do pouco espaço.

Ana Fernandes - A sensação que eu tenho é que em Salvador o mercado de decoração é exatamente o mesmo mercado de alto luxo. Não há segmento de lojas que atenda a classe média "modernizada".
Fabiano Xavier - Exatamente. Eu acho que esse segmento o mercado de decoração de Salvador ignora. Em Salvador há lojas de sofá por dez mil reais, e lojas por 500. Você não tem o mercado intermediário...

Ana Fernandes - Um pouquinho mais! Então é estranho que você perceba e que você tenha loja de artefacto, loja de cerâmica, coisas do tipo...
Fabiano Xavier - A Portobello... Isso é que eu digo, sempre questionei, não sei se tenho razão...eu particularmente tenho a impressão de que não existe mercado de trabalho para 120 ingressos na faculdade por ano. Ainda mais porque a gente teve dissociação. Existe o curso de Design, Decoração de Interiores, Belas Artes, formação das outras faculdades privadas. A FACS tem o curso de arquitetura que está abrindo. O que aconteceu na arquitetura? Para a arquitetura sempre convergiram outras vocações que não encontravam seu objetivo específico. Entre aqueles 120 que entravam, você tinha o pessoal que ia fazer publicidade, o pessoal que ia fazer teatro, cenografia. Você tem arquiteto fazendo qualquer coisa. É uma formação que permite inclusive isso. Até mesmo iluminação! Então abriram-se essas outras possibilidades de Design gráfico, Desenho publicitário, de Web Design..., Pessoas que talvez a dez, quinze anos atrás teriam vindo para o curso de arquitetura e continuam as 120 vagas, mesmo que não se formem 120. Ainda bem que o curso é um pouco seletivo, até na duração. Ainda mais que a profissão é longeva. Existe aquela famosa piada de que ninguém é arquiteto antes dos quarenta. Eu acredito um pouco nisso, porque eu acho que é necessário uma maturidade, uma grande prática, entender o que está fazendo e saber porque se está tomando as decisões. Então tem esse problema, o exercício vem bastante tarde. Um arquiteto de 75 anos está na plenitude de sua profissão, quando não mais. O Assis, o próprio Kiko Alvarez, não são mais meninos, estão todos na faixa dos 55, 60. Todos esses arquitetos estabelecidos em Salvador no "boom" dos anos 70 estão aí firmes e fortes. Dizem que o Paládio começou aos 80...
Essa questão do mercado para quem vai sair da faculdade é muito complicada.

Ana Fernandes - E o quê você acha disso. Há perspectiva de atuação?
Fabiano Xavier - Se eu fosse um arquiteto que saísse da faculdade... A primeira opção é continuar estudando. Eu acho que mesmo quem não tem interesse de fazer carreira universitária, dois anos de mestrado não fazem mal a ninguém. Porque o pessoal ingressa muito cedo. Eu mesmo ingressei com dezessete anos. Se eu tivesse continuado na UFBA, teria me formado aos 22, 23 anos, 24 com as greves. É uma afronta você dizer que alguém com 24 anos tem discernimento para projetar com consciência. Ele vai reproduzir. Eu considero que ele não tem o senso crítico nem o caráter formado suficiente para um posicionamento sério diante do projeto. Então é muito cedo para um sujeito entrar na vida profissional. Talvez estender um pouco mais não seja um mau negócio. Eu achava que deveria haver uma possibilidade, talvez até ligada a universidade, de empresa...como é que o pessoal chama?

Ana Fernandes - Empresa Júnior...
Fabiano Xavier - Empresa Júnior, escritório modelo! que permitisse ao pessoal uma prática mais qualificada. Que não houvesse essa ruptura tão grande entre a arquitetura praticada na Universidade, que às vezes peca pela falta de vínculo com a realidade nua e crua, e que acaba caindo no colo do pessoal quando sai da faculdade. Talvez abdicando de tudo que aprendeu na faculdade e se dando conta de que para conseguir ganhar a vida tem que entrar no esquema, modelo, de reproduzir as coisas. Então, tem essa transição que me parece muito complicada para quem está saindo.

Ana Fernandes - Do ponto de vista da sua experiência, que teve uma formação na França, como se dá essa passagem? Havia mecanismos que fazem essa ponte ou não?
Fabiano Xavier - O próprio Bernard Huet me falava : "escola de arquitetura boa, não existe nenhuma no mundo". Ele deve saber porque fundou uma, dava aula em mais duas ou três, então ele diz que existem as "menos piores". Uma coisa que falta no Brasil que sustenta um pouco o exercício do récem formado na França é o concurso. Você tem possibilidade. Eu diria que são duas coisas que possibilitam o exercício crítico do recém formado na Europa: o concurso público e o seguro desemprego.

Ana Fernandes - Isso é bastante importante...
Fabiano Xavier - Você está de "OK", vai lá, trabalha três quatro meses no escritório do seu ex. professor, de um Jean Nouvel da vida. Depois nos outros três quatro meses vai investir em você, em um concurso público, vai receber seu seguro desemprego, não vai morrer de fome, existem os convênios universitários, as ONGS e outros tipos coisas que permitem um relação com o mercado. E o concurso, que é básico. Não pensando que o concurso na Europa não tem marcação, pois é obvio que tem. Para você participar de um concurso na Europa já é muito complicado, mas tem sempre uma possibilidade... Aqui a prática do concurso é muito pouca, o que a gente tem é a famosa licitação, que não é o concurso, que é por menor preço, que é uma excrescência também...

Ana Fernandes - Há concursos sendo propostos.
Fabiano Xavier - Mas é muito pouco...Então eu vejo a questão do concurso. Agora o recém formado só tem como participar no seio de uma pequena cooperativa de estudantes. Dessa forma eu vejo possibilidade de uma arquitetura mais engajada, mais direcionada. O "cara" que saiu da faculdade com vinte e poucos anos tem até os trinta para adquirir uma certa autonomia pessoal. A não ser que constitua família... Um professor me disse assim: "não tenha filho antes dos quarenta, porque arquitetura é uma amante exigente". Mas é uma grande verdade. Quem constitui família tem dificuldade de desprendimento que é o exercício de ter um filho. As próprias ocasiões se apresentam, por exemplo: de repente ir para "não sei aonde!" A mobilidade é muito importante na arquitetura.

Ana Fernandes - Em 2000, os dados do CREA mostram que 89% dos arquitetos da Bahia estão na região metropolitana de Salvador e apenas 11% no resto da Bahia...
Fabiano Xavier - Pegue a lista telefônica que você vai encontrar um escritório de arquitetura em Porto Seguro, Ilhéus deve ter uns dez, que cobrem a região toda. Evidente que tem os que não estão na lista telefônica, mas existe um mercado grande no interior. A Bahia é muito centralizada em Salvador. Todos os projetos de urbanismo, de Plano Diretor, é tudo feito em Salvador, porque a contratação se faz aqui. Não adianta você estar em Vitória da Conquista se o Plano Diretor é contratado em Salvador. Isso porque o poder político está aqui! Às vezes até o prefeito da cidade do interior mora em Salvador, então tem essa questão... Eu acho que falta dinâmica econômica ao estado da Bahia para poder gerar trabalho para arquiteto.

Ana Fernandes - Agora, como você diria que está a divisão do trabalho de arquitetura na Bahia hoje? Você estava dando o exemplo de sua amiga em São Paulo, com escritório de paginação...Na Bahia continua aquela coisa mais tradicional : do arquiteto, escritório, que resolve um conjunto de coisas, mesmo que mal, a subcontratação está ganhando peso...
Fabiano Xavier - A subcontratação informal, não a sub contratação especializada. eu conheço muito pouca gente, eu acho que é um mercado...eu
conheço pessoas que estão muito bem, que trabalham com nichos muito específicos. Olavo Filho, por exemplo, não só pela herança profissional do pai, mas ele não trabalha só com acústica, trabalha também com projetos complementares... é um nicho pequeno... Existe alguns nichos, mas não nessa questão empresarial, as pessoas não partiram ainda em Salvador para investir nesse serviço qualificado. Porque aqui na Bahia há uma grande dificuldade de se pagar serviço qualificado. Ele até paga, mas contrata em São Paulo e não tem volume. O "cara" que trabalha apenas com essa atividade, ele não vai Ter volume para manter uma estrutura funcionando. As empresas especializadas em Salvador, inclusive os escritórios de arquitetura atuam no Brasil todo. Por exemplo, a CITÉLUZ atua, porque é a vocação dela atuar nacionalmente, mas por exemplo o André Sá atua no Brasil todo. Vários escritórios, o próprio Fernando Frank atuava muito em São Paulo. As próprias construtoras baianas atuam fora, porque só mercado da Bahia não resolve. Tem o mercado de Sergipe. A presença dos arquitetos de Salvador no mercado de Sergipe é muito forte. Então, eu não vejo essa opção de mercado em Salvador, pela não tendência de remuneração. Não cabe no orçamento das empresas nem no bolso do comprador baiano. A renda média, da classe média baiana, ainda é muito inferior a média das outras capitais, apesar de que a renda da classe alta da Bahia ser muito alta. Ela se equipara a renda da classe alta de São Paulo. Tanto que a gente vende imóvel no padrão alto, se constroem casas...

Ana Fernandes - Você não acha que isso pode vir a acontecer em Salvador? Ou seja, ter um lucro maior pelo grau de concentração que tem a economia, o que leva uma situação onde, em vez de remunerar bem o serviço, as empresas acabam dominando o mercado de tal maneira que aumenta em muito o lucro delas em detrimento da qualidade do produto que esta sendo feito.
Fabiano Xavier - E aumenta o lucro até como posição de auto defesa, porque como há períodos de inconstância, se o lucro for normal, quando ele tem problema de constância, ele entra em problema de fluxo de caixa. Isso é uma verdade. As margens de lucro aqui, não de arquiteto, pois eu nunca vi arquiteto cobrando lucro, a grande maioria cobra hora de trabalho, a noção de lucro lhes é estranha... Nenhum dos arquitetos tem por objetivo: Ter empresas que dão lucro, eles tem por objetivo: Ter empresas que garantam a subsistência. Isso é um absurdo, porque o objetivo é que as empresas dêem lucro, inclusive as de arquitetura. Eu acho que isso é uma coisa que falta na formação universitária. Você não forma pessoas para se inserirem na lógica do mercado. Mas o pessoal é muito desemparelhado para entender o que é um diferencial de preço, o que é formação de custo, o que é fluxo, como é que faz. Por isso que eu vejo o pessoal às vezes fazer proposta, que o cara vai trabalhar de graça. O pessoal não sabe fazer contrato, trabalha com contrato tipo, vai pegar o modelinho do IAB para fazer contrato. Tudo isso é muito pernicioso para o pessoal que vai sair da faculdade. Todo ano saem 30, 40, dos quais 5 talentosos para o mercado explorar! E esses meninos vão demorar o quê? Três, quatro anos para perceber que vão ser explorados.

Ana Fernandes - Mas de qualquer maneira eu acho isso um pouco parte da formação. Aí você já está fora da escola...
Fabiano Xavier - É o que a gente chama na França de Tempo de Negro, (Nègre), escravo de escritório. È o desenhista. Existe a lógica do escritório, que é o cara que domina o fazer, a técnica do fazer arquitetônico, e que sabe que o arquiteto que sai da faculdade não a domina. Existe um pensamento subliminar que isso também se cobra. E isso se cobra como? Já que você vai aprender comigo para depois ser meu concorrente, eu vou te pagar pouquinho, pouquinho, pouquinho... Essa é a lógica da troca. "Você vai passar por aqui". Por isso que a rotatividade é muito grande em alguns escritórios. Nos escritórios maiores tem essa tendência em Ter três, quatro coordenadores e uma equipe que é rotativa. Que é o autocad, que facilitou muito isso. Eu pessoalmente acho o CAD um nivelamento por baixo. A representação gráfica antes era um diferencial. Você tinha o arquiteto que tinha um belo traço, que tinha facilidade da representação gráfica. Fazia parte das ferramentas do discurso a representação gráfica. O autocad trouxe tudo isso para o padrão insípido. Agora com essas ferramentas de renderização...mas a renderização é um negócio insosso. Quer dizer, essa diferenciação, foi embora. Todo mundo passou a ser igual perante o auto cad. Todo mundo recebe igual, recebe pouco. Porque para desenhar, paginar piso, fazer off-set, ponto trinta, ponto trinta, ponto trinta, qualquer macaquinho treinado faz. Quando o macaquinho se encher é só pegar outro macaquinho treinado e colocar no lugar.
Na Europa, vários professores tinham informatizado os escritórios. E da última vez que eu estive na França, no ano passado, estava todo mundo "desinformatizando", voltando para prancheta porque eles perceberam o tempo que se perdia com o desenhar, e quanto isso roubava do tempo da concepção. Então eles voltaram para o essencial da atividade que é desenhar. Existe uma figura que não existe no Brasil que eles chamam de "escritório de pilotagem de obra", que na realidade é um escritório de coordenação de obra, que vai fazer essa copilação dos diversos projetistas sob a coordenação do arquiteto. Então o pessoal voltou para o essencial. Essa parte de trabalho de massa, de autocad, de superposição de plantas, de layers...foi para um executor na realidade. Algumas construtoras aqui na Bahia também começaram a fazer isso, dentro das próprias obras. O engenheiro faz uma parte do trabalho do arquiteto. Isso são atividades acessórias. Na França isso é muito exercido pela formação de técnico, ou as pessoas que tem o curso de arquitetura pela metade. E as pessoas retornaram ao desenho manual, tirando os escritórios muito grandes, que têm estrutura. Mas mesmo nos escritórios muito grandes, eu continuei vendo as pessoas trabalhando com maquetezinha de papelão, papelão de sapateiro, balsa, usando os meios normais da arquitetura, o croquí...

Ana Fernandes - Realmente parece muito complicado o CAD...
Fabiano Xavier - Eu tenho horror!!! Arquiteto que faz croquí em autocad é...

Ana Fernandes - É muito mais simples fazer a mão, não?
Fabiano Xavier - E o AutoCAD não acompanha a velocidade de lançamento de um croqui. O pessoal não utiliza instrumento apropriado. Pouquíssimos lugares trabalham com caneta gráfica, com mesa digitalizadora. O pessoal trabalha mesmo no mouse. E as nossas meninas todas candidatas ao LER, aos 25 anos com problema de articulação no pulso, no braço, no pescoço, deslocamento de vértebra... Porque passam horas no autocad, para fazer o que se faz na prancheta em cinco minutos. Porque não interessa a precisão do autocad para determinadas fases Do projeto. O Autocad te constrange a uma precisão inicial que é absolutamente desnecessária, não tem nenhum sentido.

Ana Fernandes - Eu trabalhei agora com um menino fazendo trabalho final. Era uma maravilha. As imagens ficaram num processo bem legal. Ele fez tudo na mão, depois, ao definir tudo ele foi para o autocad. E aí ele pode reproduzir muito rápido, podendo mudar qualquer coisa...
Fabiano Xavier - Uma coisa interessantíssima, na França se usa muito a xerox como meio de projeto, meio de produção, principalmente a xerox em vegetal com colagens e montagens sucessivas. Você usa aquilo e vai tirando xerox do vegetal...e você assume aquela distorção, porque naquele momento do projeto pouco lhe interessa isso, permitindo também essa multiplicação de plantas. Eu estou a algum tempo sem ver o nível do pessoal que sai da faculdade. Esses últimos contatos, tanto o Marcos, como o Adriano, talvez não representem a média do estudante. Eu fiz algumas seleções quando trabalhava com Fernando. Olha o caso : eu coloquei um anúncio no Jornal A Tarde para contratar arquiteto para o escritório de Fernando Eu tive quase 50 candidatos, e eu contratei um desenhista pelo salário do arquiteto.

Ana Fernandes - Você precisava de um desenhista?
Fabiano Xavier - Não, precisava de um arquiteto. Como só apareceram desenhistas... Eu contratei um desenhista que era mais arquiteto que os outros desenhistas todos. Faltava ao pessoal o discurso de arquiteto. faltava o aparelhamento. Eu vejo muito isso, eu sinto falta no que eu pude conviver na minha época de estudante. Primeiro falta uma certa cultura geral de arquitetura. O pessoal não conhece o básico, história da arquitetura, dispositivos do projeto...Conhece o maneirismo do projeto, mais o formalismo. Mas não entende porque aquela solução. Então é difícil a discussão teórica dentro do escritório. Já por exemplo, eu tive três arquitetos argentinos trabalhando comigo lá no Fernando, e é um pessoal que senta com você na frente de um projeto, e "tem suco para espremer" você vai longe na discussão. As vezes nem chega num consenso, mas tem matéria. E o pessoal daqui fica muito restrito. Por exemplo, a literatura especializada do dia a dia, que é AU e Projeto, de repente você vê o pessoal falando desconstrutivismo...não dá para falar de desconstrutivismo. Eu vi um aluno que teve a infelicidade de falar que tinha feito o trabalho com a intenção de criar um efeito barroco. O professor respondeu que barroco era muito interessante mas não era para ele, você não sabe nem o bêabá ainda para ficar fazendo prosopopéia. Primeiro vá aprender o alfabeto, vá aprender a fazer uma frase com verbo sujeito, predicado, complemento. Depois você vai escrever um texto correto... E quando você tiver tudo isso, pode começar a pensar em um procedimento barroco ou outra coisa. E acrescentando o desconstrutivismo... quer dizer o pessoal quer desconstruir, mas nem sabe construir direito, então fica difícil você derrubar uma categoria que você não domina. Por exemplo, o livro do Ching, dos conceitos básicos da arquitetura... o arquiteto que não domina pelo menos aqueles conceitozinhos básicos de justaposição e que não conhece os exemplos históricos daquilo fica difícil você conversar. Aquele livro eu acho fantástico, devia ser livro de cabeceira de estudante de primeiro ano. Como é que são esses dispositivos, como se valem, como foram utilizados? Foram utilizados da mesma maneira, a mesma categoria composicional foi utilizada na renascença e foi utilizada recentemente por outro arquiteto. Essa compreensão não tem nada haver com estilo, escola...
Interessante é que a gente nem tem os manuais de arquitetura do Brasil. Na Europa você tem os grandes manuais. Até as restrições de escolas, vanguardas ou não, os vocabulários, etc. Eu tinha um professor que orientava os alunos a personificar um arquiteto, e nessa história, o cara tinha que correr atrás. Para entender como é que o pensamento do arquiteto se construía. E ele não aceitava você fazer vários... a não ser que fossem até o fim.
Lá no Fernando, interessante, houve uma época que a gente tinha uma equipe: era eu, com minha formação européia, tinha o Marco Antônio Pinheiro, que trabalhou muito tempo com Niemeyer, foi braço direito de Lelé, Zé Chaves que trabalhou com o Zanini, os dois argentinos, o pessoal da Bahia... era uma equipe de conteúdo. Mesmo que o dono decidisse tudo no final, a gente tinha a liberdade de propor. Quando não tem esse embate dentro do escritório, o produto sai todo igual... e para fazer produto igual com autocad é só trabalho reprodutivo, as pessoas já tem até banco de projeto pronto. Para fazer o apartamentozinho de dois quartos nem se dá ao trabalho de ver a orientação do terreno. A arquitetura do lote, vai pegar os recuos, colocar uma rampa de garagem, colocar o aviãozinho que é aquele que tem uma azinha para cada lado, ou então o H. E vai fazendo projeto, levando para prefeitura...e o pessoal raciocina em m².

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