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Ana Fernandes - Como foi a sua formação?
Fabiano Xavier - Eu fui admitido na UFBA em 86 pelo
vestibular, cursei três semestres na FAUFBA, até
meados de 87. Em 87 eu me transferi para França, Paris.
Passei este ano fazendo praticamente curso de língua
francesa para me preparar para Universidade. Em 88 eu ingressei
na Escola de Arquitetura de Paris Belleville, UP-8.
Eu fui admitido em segundo ano, sendo que com duas dependências
do primeiro. Eles me deram três quartos do primeiro
ano como equivalentes. Eu cursei 88, 89,90, 91 e 92 em Paris-Belleville.
Em 93 eu voltei ao Brasil para fazer meu trabalho de final
de curso, porque eu queria uma temática brasileira,
já que eu tinha intenção de voltar ao
Brasil. Meu retorno foi no final de 93, e durante o ano de
94 eu preparei meu projeto e a minha monografia, baseado no
Centro Histórico de Salvador, basicamente o projeto
de reutilização da Escola de Medicina, e a monografia
em cima do estado da questão teórica dos Centros
Históricos. Em se tratando de monografia, não
era um trabalho original.
Eu voltei à França em janeiro de 95 para defender
em fevereiro, retornando ao Brasil no início de Março.
Em abril fui empregado pela primeira vez. Eu mandei dez currículos
para dez escritórios que eu escolhi em Salvador. Dos
dez eu recebi resposta apenas de um, que me chamou para entrevista.
Sai empregado da entrevista, mas os outros nove não
fizeram nem contato. E isso é uma coisa tradicional
na cidade de Salvador. Raramente as pessoas respondem a entrega
de currículos. Eu já tive ocasião de
fazer seleção várias vezes e é
impressionante como as pessoas não têm esse hábito
de agradecerem, ou de terem um banco de currículos.
Não dão resposta nenhuma.
Então comecei a trabalhar na TGF Arquitetos. A TGF
é um escritório que tinha na época quase
30 anos. TGF é Tavares, Gomes e Frank. Pertencia a
Jader Tavares, Oton Gomes e Fernando Frank. E nesta época,
em 95, tinha acabado de sair Eduardo Brandão, que era
associado do Fernando Frank. Eles desfizeram a sociedade e
eu entrei basicamente numa reestruturação que
houve dentro do escritório. Entrei como arquiteto recém-formado
apesar de ter feito dez anos de faculdade. Eu comecei em 86
e me formei em 95, portanto foi bastante longa a minha formação.
A TGF é um escritório que trabalha basicamente
com o mercado imobiliário em cima de dois ou três
grandes clientes, que na época eram a Construtora Suarez,
Andrade Mendonça e mais alguns clientes menores, mas
sempre baseado em mercado imobiliário. Mercado imobiliário
basicamente de luxo. Havia um direcionamento de produto dentro
do escritório. Com um bom padrão, ótimo
detalhamento de projeto, já que tinha um acervo de
trinta anos de projeto, um banco de detalhes muito grande.
No escritório se desenhava muito, desenho a mão.
Se detalhava à escala 1:1, se detalha apartamento na
escala 1:20.
Ana Fernandes - Isso tudo é dentro do próprio
escritório? Com quantas pessoas?
Fabiano Xavier - Dentro do escritório, com equipe
própria. A equipe durante o tempo que esteve lá
variou de sete a quinze pessoas, com uma média de sete
a oito arquitetos normalmente. A estrutura é muito
enxuta, tem apenas uma secretária e um boy., o resto
são desenhistas e arquitetos. A partir de meados de
96, com um ano, eu passei a coordenar o escritório.
Permaneci como coordenador até 99. Foram três
anos de coordenação, dentro dos quais tive uma
quantidade de bons arquitetos que passaram por lá.
Não é um escritório de grande rotatividade,
sempre empregou bons profissionais e pagou bem. Então,
eu diria que foi uma boa época no escritório.
A minha saída coincidiu mais ou menos com uma crise
de um dos maiores clientes, a Construtora Suarez que acabou
gerando algum problema de "caixa" no escritório.
Houve redução de equipe, mas a notícia
que tenho é que o escritório já se reestabilizou,
após redirecionar a clientela.
Bom...após essa passagem pela TGF, onde a gente desenvolveu
vários projetos grandes, inclusive em São Paulo,
o que foi para mim um início de carreira muito bom.
Primeiro pela possibilidade de interagir com os melhores profissionais
da cidade de Salvador. Na área de estrutura trabalhei
praticamente com todos: Ney Cunha, Leite e Miranda, Carlos
Strauch. Também na área de projetos complementares
com profissionais como Talles de Azevedo. Basicamente é
um escritório que sempre trabalhou com os melhores.
Com Olavo na parte de acústica, com bons projetistas
de ar condicionado e de projetos complementares.
Então, essa minha passagem lá foi um complemento
de formação muito interessante. Eu que vinha
de uma formação muito teórica na França.
Teórica mas com uma concentração grande
em projeto, de prática de projeto, de desenho na prancheta
mesmo. Eu venho de uma escola que tinha duas linhagens (correntes
teóricas). Eu tive professores que trabalharam com
Louis Khan nos EUA, e uma outra linhagem Neo-Corbusiana (Neoplasticista).
Eu cursei alguns semestres com professores dessa linha. Mas
era uma escola que tinha uma exigência muito grande
em cima do projeto, do desenho e da intenção
do projeto. Vindo para o Brasil, pude trabalhar num meio profissional
diferente, diverso, pois não se tratava de um escritório
de autoria (costumo chamar de arquitetura de autoria). Era
um escritório com objetivos mais comerciais, embora
faça uma arquitetura de boa qualidade técnica.
E isso me permitiu um complemento bom da formação
universitária.
Em 1999 eu resolvi fazer uma guinada na minha carreira. Um
pouco pelo fato de estar 4 anos e meio no mesmo lugar não
via ainda a possibilidade de partir para um vôo solo.
O mercado estava acirrado e competitivo e as iniciativas individuais
são difíceis, principalmente para os arquitetos
já inseridos depois de 4, 5 anos. Acho que a iniciativa
individual é mais fácil para o recém
formado, mas ela vai ficando paulatinamente mais difícil
à medida que você vai se relacionando dentro
do mercado. E ocorreu uma oportunidade de uma empresa francesa,
multinaciona,l que trabalha na área de iluminação,
que é uma subsidiária da EDF (Éléctricité
de France), uma empresa muito grande, maior grupo de energia
do mundo atualmente. E por um acaso do destino a CITÉLUZ
que é a empresa que se ocupa da área de iluminação
da EDF estava abrindo uma filial no Brasil, no Rio de Janeiro.
Esta filial do Rio de Janeiro por sua vez tinha aberto uma
filial na , por conta de alguns projetos que foram iniciados
aqui : a iluminação do conjunto da Praça
da Sé, e havia necessidade de um arquiteto que falasse
Francês. A empresa me fez uma proposta, na época,
financeiramente equivalente ao que eu ganhava, e com uma proposta
de formação, treinamento e algumas outras vantagens
que eu considerei boas na época. E efetivamente são
três anos que eu estou na CITÉLUZ. Eu entrei
como arquiteto projetista,fiz minha formação
de "Lighting Design", projetei muitos projetos de
iluminação de monumentos. O final da minha graduação
foi voltado para área de patrimônio. Então
eu pude projetar algumas iluminações de monumentos
tombados, fiz acompanhamento de obra, fiz estágio na
França e hoje sou Gerente de Projeto da CITÉLUZ.
Nós vínhamos com uma equipe de projeto de iluminação
e de urbanismo iluminotécnico de nove pessoas até
agora, mês de agosto. Ana Fernandes - Essas pessoas vieram de onde?
Fabiano Xavier - Nós tínhamos uma francesa
que veio como multiplicadora, foi a primeira. Trabalhou como
minha gerente no início, que por coincidência
agora está retornando à França. Ela cumpriu
a etapa dela de multiplicação aqui, depois nós
começamos... Eu selecionei um aluno em final de curso
e um recém-formado que nós incorporamos. Um
durante oito meses como estagiário e o Adriano Mascarenhas,
que ficou com a gente sete, oito meses, como arquiteto pleno.
Com a chegada do racionamento de energia a gente teve que
fazer restrição no quadro de pessoal porque
essa área de urbanismo luminotécnico e iluminação
de monumento praticamente virou um tabu, e a gente resolveu
"levantar o pé" do mercado, para não
criar constrangimento. Principalmente porque até nas
áreas em que o racionamento não teve uma ação
decisiva, por exemplo, no Sul do país, (a empresa trabalha
no Brasil todo, do Rio Grande do Sul a Manaus) começou
a haver um entendimento moral da questão do racionamento,
as pessoas mesmo podendo tinham essa dificuldade, constrangidas,
principalmente em Porto Alegre, onde a gente tinha vários
projetos em andamento e a prefeitura do PT achou que era uma
exposição desnecessária e resolveu suspender
os projetos até a retomada da normalidade no país.
Na CITÉLUZ eu tive várias atividades. O objetivo
da CITÉLUZ é iluminação urbana.
O produto da empresa é gestão de iluminação
urbana, isso é compreendido como uma concesão,
uma terceirização da iluminação
pública municipal, para uma empresa especializada,
com contratos de longa duração de cinco anos,
baseado em metas de qualidade em que há um controle
direto, por parte da prefeitura, através de um sistema
informatizado, do que é feito. Este é o produto
grande da empresa. Ana Fernandes - A iluminação pública
é paga através de taxa que a Coelba recolhe
(aqui em Salvador). O gerenciamento desse setor passaria a
ser feito pela CITÉLUZ? Como é essa relação
Prefeitura x Coelba?
Fabiano Xavier - O caso da TIP, Taxa de Iluminação
Pública, é um caso controvérso. Existem
diversas modalidades de aplicação da TIP, em
diversas cidades brasileiras, mas existe o problema do questionamento
da constitucionalidade da TIP. Isso está entrando em
discussão no Senado, tem um projeto no congresso. No
caso de Salvador, existe um convênio entre a prefeitura
e a Coelba. A coelba recolhe a tip na conta de luz e repassa
para a prefeitura. A coelba não presta serviço
de manutenção de iluminação pública. Ana Fernandes - E quem faz isso?
Fabiano Xavier - Atualmente em Salvador, existem três
empresas responsáveis pela manutenção,
a que a gente chama de manutenção tradicional.
O gerenciamento vem a ser mais que a manutenção
tradicional, porque ele incorpora as atividades de planejamento,
as ações de manutenção, de prevenção
e ele incorpora os critérios de qualidade, com a possibilidade
de aplicação de multas por parte do contratante.
Como é que se passa a nível mercadológico?
Houve uma mudança na constituição. A
nível constitucional a iluminação pública
passou a ser atribuição das prefeituras e, até
então, haviam vários quadros: ou as concessionárias
tinham a concessão da iluminação pública,
ou algumas prefeituras tinham serviços próprios
como por exemplo a do Rio de Janeiro, que tem uma empresa
municipal, a Rioluz ou São Paulo (ILUME), que também
tem uma empresa. Esse quadro começou a se alterar com
o processo de privatização das concessionárias,
porque a iluminação pública é
deficitária para as concessionárias e as prefeituras
não são muito bons clientes, não muito
boas pagadoras. Então havia essa relação
de amor e ódio. Com a privatização, principalmente
os grupos estrangeiros que vieram para o Brasil consideraram
que não mais interessava manter essas relações.
Porque o negócio das concessionárias não
é fazer iluminação pública, é
vender energia. Existe uma contradição. Nesse
meio tempo houve também a criação do
processo que é o programa de financiamento através
da Eletrobrás. E há todo um movimento em prol
da modernização do mercado do Parque de Iluminação
Pública Brasileira, também muito em necessidade
de economia energética. O movimento começa em
torno da economia energética. E a ele a empresa (Citéluz)
vem agregar uma proposta de consciência energética
com qualidade de serviço.
Onde entram os arquitetos nessa história? : qualidade
de planejamento e qualidade estética, ou seja, a criação
de uma imagem noturna da cidade. E isso é um ramo de
planejamento urbano noturno, que envolve ferramentas próprias,
planos diretores de iluminação, que é
o produto que a gente vem tentando desenvolver. Ana Fernandes - A CITÉLUZ está no Brasil
desde quando?
Fabiano Xavier - A CITÉLUZ está no Brasil
desde 98, é bastante recente, sendo que o primeiro
ano deles de experiência no Rio de Janeiro foi muito
malfadado. O começo das atividades com algum sucesso
foi no início de 99, muito em função
do que se conseguiu na Bahia e algumas experiências
que a gente conseguiu levar "a cabo" em Fortaleza,
pois só agora é que as atividades estão
começando a tomar um rumo de um Planejamento Urbanístico.
Como é que se consegue trabalhar "isso"?
Evidentemente que é contratação pública,
porque a atribuição da iluminação
pública é da Prefeitura. Então a dificuldade
é a transição do modelo tradicional,
que é quando a manutenção da iluminação
pública ainda é assegurada pela concessionária,
que existe em vários lugares do Brasil, ou quando a
manutenção da iluminação pública
é feita pela prefeitura seja por meio de uma empresa
municipal, terceirizada que trabalham na base da ordem de
serviço. É um mercado completamente novo esse
mercado de iluminação para arquitetos no Brasil.
Existe até uma associação de projetistas
de iluminação, por incrível que pareça.
ABAPILUM, que é presidida pela Ester Stiller, que é
arquiteta, pioneira da arquitetura luminotécnica, que
é diferente da engenharia luminotécnica. Há
uma diferença da visão de engenharia de iluminação
e da arquitetura, do urbanismo de iluminação,
que consiste no agregar valor estético aos números
frios do consumo energético. São muito poucos
profissionais que trabalham com isso no Brasil. Você
tem uns quinze escritórios no Brasil inteiro, sendo
que a maior parte trabalha com iluminação predial.
Basicamente no Rio e em São Paulo é onde já
pagam pelo diferencial do projeto luminotécnico, já
existe a necessidade de se agregar esse valor ao produto,
atendendo ao fator de economia. O famoso "prédio
inteligente", que não tem nada inteligente... Ana Fernandes - A Ester Stiller ofereceu um curso aqui?
Fabiano Xavier - Ela é de São Paulo,
já trabalha na área a trinta anos. Ela deu um
curso aqui no último congresso do CREA. Agora, com
relação a intervenção urbana...existe
a intervenção pontual, a nível de monumentos
e de espaços públicos... Ana Fernandes - Ela não trabalha com isso?
Fabiano Xavier - Não só com isso, a
Ester trabalha basicamente com predial. Ela é uma das
que já fez algumas incursões individuais na
área de urbanismo. Ela fez um projeto interessante
da Av. Atlântica no Rio que não foi realizado,
mas a atuação do arquiteto projetista nessa
área em "vôo solo" é muito difícil,
porque fazer diretrizes de projeto perante o poder público,
ou ser apenas projetista de projeto individual é muito
complicado. Então são poucos os que têm
o objetivo de trabalhar a iluminação urbana,
ou seja, a iluminação pública funcional
mais a iluminação do patrimônio edificado
e dos espaços públicos. É uma proposta
global. E são propostas longas, não é
apenas uma proposta de realização pontual, é
uma proposta de realização a longo prazo, de
planejamento, de investimento, ou seja, é um plano
diretor, esse é o objetivo dessa atuação.
Daí vem a indagação: " o que você
vê em termos de guinada profissional?" É
estranho que um arquiteto que trabalha com projeto, que é
o que eu gosto de fazer, vá trabalhar com este tipo
de intervenção setorizada. Uma intervenção
de menor abrangência. A grande intervenção
na CITÉLUZ para mim, é que eu consigo primeiro,
fazer o projeto, negociar o projeto, realizar o projeto, ver
o resultado e fazer minha auto-crítica em oito meses.
Quando se trata por exemplo de uma edificação,
o que não acontece no mercado de arquitetura tradicional,
você vai ter sua ressaca moral quando faz um mau projeto,
apenas quatro anos depois, normalmente. Então, a velocidade
da prática é muito interessante, as ferramentas
de simulação também, mas não sou
fanático por informática... Ana Fernandes - Você usa muito computador?
Fabiano Xavier - Minha equipe usa, eu uso lápis
de cor. Eu continuo usando papel canson preto e lápis
de cor branco. Porque a simulação informatizada
da luz é bastante interessante para o leigo. Mas para
quem consegue ver a luz, a gente pode desenhar ela sem o menor
problema. Tem isso de interessante...é a "coisa"
da luz para quem é arquiteto, é apaixonante,
porque eu sempre projetei arquitetura assim, até mesmo
pela influência da escola Khaniana, onde o espaço
é a sua luz. Eu sempre projetei pensando na luz, e
fazer iluminação artificial é fazer o
contrário, o que é um pouco de colocar o sol
de cabeça para baixo. É muito interessante você
perceber como os objetos finalmente funcionam sob a luz. A
gente tem essa oportunidade trabalhando em cima de uma realidade
pré-existente. E eu diria que ajuda muito em termos
de compreensão de espaço construído,
distância, volume, de composição de fachada.
Isso porque iluminação, também é
compor, a gente seleciona, é uma bobagem pensar que
não... Você seleciona aquilo que quer mostrar.
O ato fundamental em arquitetura é você tomar
decisão do que deve ser feito, por isso eu considero
que é uma atividade arquitetônica plena. Inclusive
a gente tem na Europa, apesar de ser uma produção
independente, na França, em Paris, a gente tem alguns
arquitetos conhecidos que gostam disso. O Italo Rota é
um arquiteto que fez agora o projeto o projeto de iluminação
da Catedral de Notre Dame, junto com outro arquiteto que trabalhou
" O traçado das ruas de Paris".Bruno Fortier,
este se dá ao deleite de fazer projeto de iluminação.
Então é uma atividade interessante quanto a
isso, mas estou em busca também nessa atividade de
uma complementação daquilo que nos faz falta
muito na escola que é a visão de um funcionamento
de uma empresa. Uma coisa é um escritório de
arquitetura nos moldes que a gente conhece. Dez, quinze pessoas,
uma estrutura pequena, um faturamento de um determinado montante,
outra coisa é uma empresa grande, uma multinacional,
que tem plano de negócios, que tem planejamento de
marketing, que tem objetivo mercadológico, que tem
produto, defender qualidade, preço. Isso é muito
importante. Eu aprendi a orçar na CITÉLUZ. Eu
aprendi a fazer um orçamento físico-financeiro,
eu aprendi a fazer proposta comercial. Eu hoje faço
boa parte do trabalho institucional da empresa. Eu aprendi
a trabalhar licitação. Tudo isso são
ferramentas importantes para quem pretende atuar plenamente
no mercado. Arquiteto que tenta ignorar isso, a não
ser que ele faça aquela arquitetura autoral, de que
eu te falei no início, mas que é reservada a
uns muito poucos, encontra entraves a nível da própria
subsistência. A tendência é : quem não
dominar essa técnica de gerenciamento não vai
conseguir exercer a profissão de modo condigno, vai
continuar sendo jogado para um lado para o outro, na lógica
do mercado, da contratação precária,
da falta de vínculo, da falta de contrato, do projeto
de risco e todas essas coisas que quem já trabalhou
no mercado conhece. Ana Fernandes - Você podia falar um pouco dessa
situação de contrato de risco, falta de contrato...
Fabiano Xavier - Contrato de risco é uma excrescência
que vem do mercado publicitário. Quem funciona com
contrato de risco é o mercado publicitário.
O "cara" faz a peça contando com o sucesso
da veiculação. Como a veiculação
rende um dinheiro imenso com relação ao investimento
que ele faz, ele tem como assegurar essa lógica de
fazer a peça. De cada três, quatro peças
que ele faz o cliente aceita uma, vem e pula (veicula!), amortiza
as outras. Isso começou, foi introduzido no mercado
pelas incorporadoras, inicialmente com os escritórios
que eram tradicionais prestadores de serviço, porque
até certo ponto, eu considero que a depender do grau,
que é normal você ter este tipo de compromisso
de risco com um cliente tradicional, que lhe contrata para
fazer dez projetos por ano. Não vejo mal de você
fazer um ou dois estudos para ele verificar uma viabilidade,
só que isso se tornou uma prática de pechincha,
quer dizer: o estudo de viabilidade começou a virar
uma maneira de você fazer vários projetos, colocar
escritórios em concorrência, fazer mini-concorrências
privadas e de preferência não pagar nenhum deles.
Então começou nesta prática do projeto
de risco e o grande problema é que o mercado absorveu
isto ao ponto que os próprios prestadores de serviço,
que prestam serviços para escritórios maiores,
trabalham no risco. Eu não consigo compreender como
é que as pessoas trabalham, e o tal " risco"
é muito interessante, porque é um risco não
remunerado, pelo seguinte: se fosse uma parceria, se o sujeito
entrasse no risco com você, tudo bem. Mas ocorre o seguinte:
se o meu empreendimento naufragar, se a gente não conseguir
viabilizar "meu custo é meu, seu custo é
seu": espetacular o risco. Se a gente conseguir viabilizar
eu lhe pago aquilo que lhe era devido pelo seu trabalho: _
onde é que está a parceria mista? Não
há! Não há nenhuma parceria mista. Ou
seja, o risco é seu, e o benefício é
da outra parte, sempre. Você não tem participação
no benefício da outra parte pelo risco que você
correu. Então é por isso que o risco é
desigual, na realidade ele é uma sacanagem.(tá
no Aurélio, pode botar) Ana Fernandes - Quando você fala das pessoas
subcontratadas, digamos, prestadores de serviços, você
está falando de desenhistas?
Fabiano Xavier - Desenhistas, arquitetos recém-formados.
Por exemplo um escritório maior pega um projeto no
risco, chama um prestador de serviço também
no risco e no final quando a coisa não vai para frente,
fica todo mundo no prejuízo. Eu considero isso uma
coisa absurda. Primeiro que a pessoa trabalha numa informalidade
terrível, ninguém assina contrato de prestação
de serviço, é muito raro neste mercadozinho
do canetinha, do profissional que assina e que na verdade
vai dar para o outro profissional desenvolver, ou vai dar
para um desenhista técnico, que também já
tem um acordo com outro profissional que assina. Quer dizer,
a precariedade do mercado vem daí, a meu ver. Eu acho
que é um dos grandes problemas. Tem a precariedade
da contratação, tem a precariedade da remuneração,
ou seja, o valor do serviço tá muito baixo,
não dá para remunerar qualidade, então
a qualidade da prestação cai proporcionalmente.
Que vem a ser o famoso " projeto básico"
, que não existe. Eu acho que quem é arquiteto
sério não fala em projeto básico (que
é o projeto de prefeitura, o projeto de alvará).
É o esquema de áreas que corresponde ao estágio
zero da arquitetura, que permite que as portas abram, que
as pessoas passem e que os banheiros sejam utilizados. A arquitetura
tá depois disto. Porque a grande maioria dos projetos
de prefeitura não incorporam a estrutura que é
abatida depois das áreas vendáveis. Mas é
óbvio que se a estrutura não está incluída
na área útil, depois ela é diminuída.
Da mesma maneira que a estrutura não está, não
estão as espessuras complementares de parede, decorrentes
das tubulações, porque raramente você
vê um shaft em projeto de prefeitura. As tubulações
passam aonde? Elas passam em sobre-espessura. Então
essa precariedade do exercício ligado a isso é
que remete a idéia do "projetinho" simplificado
: "olha, eu só faço até aqui".
Por exemplo:" eu não detalho, eu não faço
quadros de esquadrias, eu só faço esquema de
telhado..." Ou seja, o arquiteto abdica do controle sob
o produto porque a remuneração é baixa. Ana Fernandes - Você acha que isso está
acontecendo em todos os segmentos do projeto de edificações,
ou está apenas acontecendo em alguns segmentos?
Fabiano Xavier - Não, acaba acontecendo em todos
os segmentos. Até os escritório maiores, que
desenvolvem o detalhamento, inclusive agora essa famosa compatibilização
digital e as atividades ligadas a qualidade da construção
como : paginação de bloco para não haver
desperdício, paginação de revestimento
cerâmico, que é um detalhamento a um nível
de escala bastante apurado. Esse pessoal é pressionado
pelo profissional que está um pouco abaixo e vai começar
a oferecer o serviço, pelo mesmo preço. As construtoras
começam a recorrer a empresas especialistas para cada
particularidade dessas. Essas empresas trabalham em grande
escala, por exemplo, eu tenho uma colega aqui da UFBA que
tem um empresa em São Paulo, Cíntia Kamei, que
foi pioneira em planta de bloco, paginação de
bloco, enchimento por concreto, bloco de cimento modulado...
Desenvolver essas modulações para diminuir o
desperdício. Ela tem uma empresa que só trabalha
com isso. Ela faz : trinta, quarenta, cinqüenta projetos
por mês, de paginação de bloco. Tem um
escritório grande, com vinte, vinte e cinco pessoas.
Então significa que o arquiteto de um escritório
tradicional começa, ou tem que incorporar, para começar
a ter uma equipe, uma estrutura gigantesca que ele não
sabe gerenciar. Ou ele começa a sub contratar, ou ele
deixa de oferecer. A pressão começa a ser essa,
quer dizer : "tudo bem, dentro do que você está
querendo me pagar eu não posso assumir todas essas
horas de detalhamento". Como também as pessoas
não trabalham pelas mesmas tabelas de honorários...
A tabela que é usada em Salvador é muito diferente
de São Paulo, fica muito difícil encontrar uma
equação financeira, que permita ao seu escritório
pagar encargos, é...contratar por salários dignos.
Então o pessoal recorre à sub contratação
informal. Ana Fernandes - Em licitações, há
referências a situações onde escritórios
tradicionais, mesmo reduzindo seu preço a quase o preço
de custo, perdem o contrato para equipes de jovens arquitetos
oferecem preços muito menores. É possível
desenvolver trabalhos dessa forma?
Fabiano Xavier - Não será possível,
porque o jovem arquiteto não sabe fazer a projeção
de custos, e ele sai da faculdade com a impressão que
R$ 15.000,00 é muito dinheiro. Para ele é uma
fortuna. Porque ele não tem um custo, não tem
uma estrutura, ele não paga imposto, não tem
quadros, ele trabalha em casa. Existe também essa virada
do mercado, o pessoal que optou pelo "home-office",
que tem um custo mais baixo, inferior ao daquele profissional
está sendo instalado com estrutura. Então tudo
isso pesa muito, nessa nova lógica do mercado. Então
tem pessoas, ou grupo de pessoas que tem preço mais
baixo. Agora, o grave é o preço mais baixo ser
menor que o mínimo recomendado para garantir a remuneração
condigna de um profissional com pelo menos cinco anos de formação
universitária. Essa é a questão. Porque
é o que tenho visto. Primeiro que tem muito arquiteto
trabalhando como desenhista, o famoso faço, desenvolvo,
e desenho... é o "cadista". Existe hoje essa
inversão de que a arquitetura é o desenho, desenvolver
em autocad, colocar as cotas, desenhar o rodapé. Porque
o autocad permite desenhar a fechadura da porta, eu já
vi desenhista desenhando buraco de fechadura em corte para
depois o corte ser plotado na escala 1:100...essa perda do
que é pertinente na escala do desenho, na representação.
Porque quando você está desenhando na mão
você tem o que é pertinente, o autocad não,
ele não tem escala, a escala vem depois, pela impressão.
Então as pessoas tem muita dificuldade nisso. Essa
inversão, esse fato de muitos arquitetos terem buscado
no exercício do trabalho de cadista, de desenvolvimentista
de projeto, que é um trabalho que você faz em
casa, por menos preço, por menos custo, e que lhe permite
muitas vezes ter outro emprego. Então não é
raro você ver no mercado arquitetos que tem um emprego
precário e que fazem o "bico caseiro". Isso
tudo é uma lógica: você tem o cara que
trabalha na loja de móveis de cozinha, que é
projetista de cozinha. Faz cinco anos de arquitetura para
ser projetista de cozinha, que é remunerado por comissão,
e que nas horas vagas desenvolve projetos para outras pessoas.
Ou então que é funcionário público,
que é fiscal da SUCOM, funcionário da SEPLAM.
Quer dizer, todas essas precariedades somadas, criam a precariedade
do serviço no mercado. Outra coisa que já falei
com você e quero deixar registrado: o arquiteto é
o único profissional liberal que não cobra consulta,
isso eu acho uma coisa interessantíssima, que vem da
questão do risco. Porque se você fecha a porta
para o cliente que lhe procura, dizendo que você cobra,
aí é que você não tem nada mesmo.
A minha experiência mostra que a quantidade de horas
que se gasta com esse tipo de conversa com o cliente sem a
menor idéia do que quer, do que precisa, que não
recorre a um estudo prévio de programação.
Mesmo as grandes construtoras atribuem isso ao arquiteto,
e é um trabalho que não é remunerado.
A gente acaba fazendo programação, estudo mercadológico,
formata o produto e depois faz. A gente acaba fazendo isso
ou sendo obrigado a reproduzir o modelito, a tipologia corrente
do mercado. Então, essa questão de não
cobrar, oferecer o conhecimento graciosamente é uma
das questões. Todo mundo que é arquiteto já
esteve numa mesa de bar em que alguém disse: "Não,
pega aí esse guardanapo, faz um riscozinho aí
para mim, que eu estou a fim de fazer uma casa". Quer
dizer, ninguém chega para um advogado e diz: escreva
uma petição aí, já que você
sabe fazer e não vai lhe custar mais do que cinco minutos.
Não é questão de cinco minutos. A gente
não está cobrando cinco minutos, a gente está
cobrando 20 anos de estudo, 20 anos de investimento, trabalho
intelectual. As pessoas não têm noção
de que trabalho intelectual não se cobra apenas por
carga horária. O pessoal tem a tendência de dimensionar
o trabalho por hora de prancheta, ou então por dor
nas costas. Tipo assim: eu vou trabalhar 300 horas. Quanto
é que vale 300 horas do meu esforço físico?
Talvez meia hora do seu esforço mental. Então,
são essas questões todas que são muito
complicadas no exercício profissional. Principalmente
em Salvador. Ana Fernandes - Tentando uma crítica social:
De que os arquitetos são de uma formação
muito elitista, que eles não respondem aos problemas
básicos da cidade, que portanto não tem mercado
de trabalho... Bom, para mim é uma questão muito
complicada, ela deve dar condição de enfrentar
o conjunto de problemas e que muitas vezes esses problemas
acabam sendo os problemas mais fáceis, talvez não
mais fáceis do ponto de vista do investimento social.
Mas do ponto de vista de você resolver programa de habitação
popular é mais complicado entender antropologicamente
como funciona aquele do que construtivamente. E vem uma série
de críticas de que o arquiteto precisa fazer "isso"
e "aquilo"...como você vê isso?
Fabiano Xavier - Primeiramente o arquiteto antes de
estar engajado ele precisa comer, então eu falo muito
uma frase do João Ubaldo Ribeiro que eu acho fantástica:
"A necessidade é irmã da porcaria".
Enquanto o sujeito não consegue o mínimo de
estabilidade de sobrevivência, ele não tem como
parar para pensar nas questões fundamentais da profissão.
Ele não tem o direito da escolha. Essa questão
do engajamento está muito ligada a como são
contratados e como são definidas as políticas
de ações engajadas. Eu acho que existe e pode
haver uma atuação da sociedade civil arquitetônica
através das entidades de classe, mas você querer
que o profissional sozinho vá combater o problema da
moradia... Ele pode eventualmente se ressurgir, escrever um
artigo, organizar um movimento contra alguma coisa. Por exemplo:
participar de discussões ligadas 'a legislação,
combater uma implantação inadequada, em algum
lugar da cidade, isso sim. Mas isso é exercício
da cidadania do arquiteto. O que eu acho difícil, a
tal questão do elitismo, não é opção
do arquiteto. A questão do elitismo é que quem
pode pagar arquiteto é a elite, e a gente também
não vai querer se enganar... O Bernini já falava:
"o arquiteto é praticamente um cortesão".
A arquitetura sempre cortejou o poder. Pela simples razão
de que sem dinheiro não se a faz (tirando algumas pequenas
exceções)mas a arquitetura está muito
ligada a grandes decisões de política pública,
de mecenato privado. A gente não fique achando que
Corbusier, Louis Khan, Mies Van Der Rohe, não se beneficiarem
e ou não souberam se beneficiar dessas ocasiões
para construir as grandes obras. Eu acho que teria uma quantidade
imensa de arquitetos interessada em trabalhar com projetos
sociais, estilo favela bairro, de equipamentos públicos,
escola comunitária e tal, com inclusive tecnologia
alternativa, com a condição que houvesse a remuneração
mínima suficiente só para poder dizer assim
: "Olha eu vou investir cinco, dez anos da minha vida
só para fazer isso". Ana Fernandes - Você acha que isso hoje se coloca
como uma possibilidade de mercado de trabalho? Tipo ação
com organizações não governamentais?
Fabiano Xavier - Eu acho que sim. Eu conheço
alguns, na minha área especificamente que tem alguns
programas de intercâmbio. Principalmente na área
de eletrificação. Como algumas ONGS, que contratam
técnicos por salários que permitem os técnicos
irem para o interior da Bahia fazer eletrificação
rural, quer dizer, que é um trabalho com amplitude
social, se você quiser. Não é um salário
de 600, 800 reais que a prefeitura paga para um arquiteto.
Eu não consigo acreditar nisso apenas por engajamento
social, não é possível você acreditar.
E daí decorrem as coisas que a gente conhece do exercício
da prática do emprego público. Ana Fernandes - E o contexto da formação?
Você acha que deveria haver uma atenção
específica sobre isso?
Fabiano Xavier - Eu acho que não Ana. O importante
é mesmo as pessoas...eu cada vez mais me convenço...existe
a necessidade do arquiteto saber em que mundo ele vive. Ter
uma formação humanística, conhecer sociologicamente
como é a cidade, a comunidade que ele vive, antropologicamente,
e tal. Como se construiu o espaço histórico
em que ele evolui. Mas eu acho que o essencial na formação
do arquiteto é compreender a função do
espaço. O nosso objetivo é construir espaço.
E se esses espaços podem estar alicerçados em
boas idéias e com uma amplitude social e alcance, mais
uma coisa viabiliza a, outra. Se inviabilizasse a gente não
teria tido 80% dessa arquitetura. Até mesmo porque
a questão do uso da destinação social
é tão efêmera, porque o uso acaba se diluindo,
talvez até antes do final da vida do próprio
arquiteto o uso já é outro. Se a norma do espaço
que ele construiu não tem um valor espacial em si que
permita ampla apropriação, ele falhou também.
Então eu não acredito muito nesse caso.
Tem um evento interessante que eu queria falar... a gente
tem em Salvador o o Emanoel Blamond... O Emanoel por exemplo,
trabalhou com o Jean Nouvel muitos anos. Trabalhou no Instituto
do Mundo Árabe que é uma obra interessante.
Um arquiteto que vem de um grande "escalão".
E aqui no Brasil fez um trabalho com a comunidade do Candeal.
É um trabalho engajado? É, mas eu acho que foi
muito mais por uma questão de oportunidade do que de
opção. É um projeto interessantíssimo
a nível de arquitetura. Agora eu não sei dentro
da escala da mídia comum, se se vai conseguir evacuar
essa concepção de que fazer arquitetura é
fazer interiores, que é o que se vem expandindo de
forma terrível. Está tendo inclusive essa confusão
no mercado. Se a gente conseguir tirar isso e voltar para
o objetivo da edificação, arquitetura de edificações
como formação de espaços. Essa coisa
da aparência é terrível. A gente está
confundindo a película e o espaço. A matéria
de trabalho do arquiteto é o que está dentro
do espaço, não é escolha de mobiliário.
O trabalho do arquiteto é o espaço que permite
a proteção. Essa proteção pode
ser variada. Esse direcionamento do mercado de interiores
que eu acho que é um problema. E talvez aí esteja
incutido a noção de elitismo. Evidentemente
que só paga decorador quem pode. Ana Fernandes - O que está acontecendo na Bahia
é que, quando se vai fazer um empreendimento qualquer,
em se tratando da indústria da construção
civil, se pensa em ter os menores custos possíveis.
Então a idéia de um arquiteto que não
reproduza exatamente esse padrão, esse modelo, é
considerado desperdício, sonho...
Fabiano Xavier - Tirando aquele pequeno diferencial
"marqueteiro" de que cada projeto tem que ter a
diferença mercadológica dele... Ana Fernandes - Só que, no caso de edifícios
residenciais, quando os apartamentos são vendidos,
eles são literalmente demolidos. E se gasta quase o
mesmo tanto se pagou por ele para fazer um outro...
Fabiano Xavier - Hoje eles já são projetados
com a evidência de serem demolidos. Se você for
ver hoje, o mercado já está oferecendo cinco
opções de planta. A reforma já vem pronta,
você personaliza antes. E que também já
é decorrência do sucesso dos empreendimentos
em condomínio. Então as construtoras tradicionais
começaram a correr atrás porque elas perderam
uma fatia de mercado para outras construtoras que trabalhavam
em cima dessa lógica da personificação
do projeto. A Arc engenharia que é uma empresa que
hoje está bastante grande nasceu e cresceu assim. Agora
ela entrou no mercado tradicional de empreendimentos. Mas
ela vinha fazendo empreendimentos só para grupos de
condomínios. Ana Fernandes - Que está lançando um
empreendimento na ladeira da Barra...
Fabiano Xavier - Mas ali já é consorciado
com outra empresa. Não é o sistema de condomínio
onde um grupo de condôminos compra o terreno contrata
a empresa e vai fazendo a obra...Mas a gente estava falando
da questão do interior. É impressionante, o
cara compra um empreendimento de 100 mil e depois gasta 80mil
na personalização do apartamento. E tem coisas
que eu acho engraçadíssimas. Eu defendi algumas
posições na época que eu estava trabalhando
com isso, que eu até gostaria de falar, eu acho interessantíssima.
A gente chegou a um ponto, você veja como são
os costumes, a força da estrutura social. A classe
média, média baixa, é a compradora do
apartamento pequeno de 2, 3 quartos. Então o mercado
imobiliário inventou o segundo quarto ou terceiro quarto
reversível, que é o quarto da empregada... essas
áreas desses quartos vieram sendo reduzidas ao longo
dos anos. Não sei se alguém já fez um
estudo sobre isso, mas lá no escritório do Fernando
Frank ele tem um acervo de plantas de lançamento, quase
quinze vinte anos. Um dia eu fiquei olhando como as áreas,
mesmo dos prédios de luxo foram caindo. Você
chega a ter na Vitória a quarta suíte com onze
metros, e não raro você vai encontrar nesses
edifícios de dois quartos três quartos, estilo
Stiep, Imbuí, esse tipo de imóvel, a suíte
máster com doze ou onze, o segundo quarto com dez,
o terceiro com nove. E por outro lado o famoso quarto de empregada
que está preso a área mínima de cinco
metros quadrados, que quando o cara não consegue arrumar
ele no reversível e fazer ele virar aquele gabinetezinho,
representa uma área de 5 m² que o sujeito de classe
média paga para manter a famosa dependência de
empregada. Porque apartamento sem dependência não
vende. Como se a gente tivesse ou fosse fazer perdurar a figura
da empregada. E o mercado não tem a coragem de fazer
o apartamento sem a dependência, só faz o flat.
Existe possibilidade até dentro daquele esquemazinho
dos sessenta e poucos metros quadrados de três quartos,
de você melhorar a qualidade de vida. A multiplicação
dos banheiros também. Eles ficaram tão reduzidos
que se tiver duas pessoas uma tem que sair para outra entrar.
Então qual é o objetivo de você Ter essas
mini-celulazinhas? Nem o convívio de um banheiro existe
mais! Não se pode dividir mais nada. Aí é
que vem o trabalho do decorador. O decorador se beneficia
dessas desigualdades. Um cidadão normal com um quarto
de 14m² não precisa de um decorador. Ele mesmo
vai na Insinuante, compra um armário daquele igual
o da casa da avó dele, compra uma imensa cômoda,
coloca a televisão...aí cabe tudo! Só
que quando ele vai morar no Imbuí, no apartamentozinho
do quarto de 10 m², ele não consegue mobiliar
o quarto. E quando ele começa a necessitar do profissional
que vai dizer: "não, você vai inverter a
abertura de sua porta, vai tirar essa porta, por uma de correr,
encostar sua cama na parede e fazer um beliche, triliche..."
Aí começa essa lógica do pouco espaço. Ana Fernandes - A sensação que eu tenho
é que em Salvador o mercado de decoração
é exatamente o mesmo mercado de alto luxo. Não
há segmento de lojas que atenda a classe média
"modernizada".
Fabiano Xavier - Exatamente. Eu acho que esse segmento
o mercado de decoração de Salvador ignora. Em
Salvador há lojas de sofá por dez mil reais,
e lojas por 500. Você não tem o mercado intermediário... Ana Fernandes - Um pouquinho mais! Então é
estranho que você perceba e que você tenha loja
de artefacto, loja de cerâmica, coisas do tipo...
Fabiano Xavier - A Portobello... Isso é que
eu digo, sempre questionei, não sei se tenho razão...eu
particularmente tenho a impressão de que não
existe mercado de trabalho para 120 ingressos na faculdade
por ano. Ainda mais porque a gente teve dissociação.
Existe o curso de Design, Decoração de Interiores,
Belas Artes, formação das outras faculdades
privadas. A FACS tem o curso de arquitetura que está
abrindo. O que aconteceu na arquitetura? Para a arquitetura
sempre convergiram outras vocações que não
encontravam seu objetivo específico. Entre aqueles
120 que entravam, você tinha o pessoal que ia fazer
publicidade, o pessoal que ia fazer teatro, cenografia. Você
tem arquiteto fazendo qualquer coisa. É uma formação
que permite inclusive isso. Até mesmo iluminação!
Então abriram-se essas outras possibilidades de Design
gráfico, Desenho publicitário, de Web Design...,
Pessoas que talvez a dez, quinze anos atrás teriam
vindo para o curso de arquitetura e continuam as 120 vagas,
mesmo que não se formem 120. Ainda bem que o curso
é um pouco seletivo, até na duração.
Ainda mais que a profissão é longeva. Existe
aquela famosa piada de que ninguém é arquiteto
antes dos quarenta. Eu acredito um pouco nisso, porque eu
acho que é necessário uma maturidade, uma grande
prática, entender o que está fazendo e saber
porque se está tomando as decisões. Então
tem esse problema, o exercício vem bastante tarde.
Um arquiteto de 75 anos está na plenitude de sua profissão,
quando não mais. O Assis, o próprio Kiko Alvarez,
não são mais meninos, estão todos na
faixa dos 55, 60. Todos esses arquitetos estabelecidos em
Salvador no "boom" dos anos 70 estão aí
firmes e fortes. Dizem que o Paládio começou
aos 80...
Essa questão do mercado para quem vai sair da faculdade
é muito complicada. Ana Fernandes - E o quê você acha disso.
Há perspectiva de atuação?
Fabiano Xavier - Se eu fosse um arquiteto que saísse
da faculdade... A primeira opção é continuar
estudando. Eu acho que mesmo quem não tem interesse
de fazer carreira universitária, dois anos de mestrado
não fazem mal a ninguém. Porque o pessoal ingressa
muito cedo. Eu mesmo ingressei com dezessete anos. Se eu tivesse
continuado na UFBA, teria me formado aos 22, 23 anos, 24 com
as greves. É uma afronta você dizer que alguém
com 24 anos tem discernimento para projetar com consciência.
Ele vai reproduzir. Eu considero que ele não tem o
senso crítico nem o caráter formado suficiente
para um posicionamento sério diante do projeto. Então
é muito cedo para um sujeito entrar na vida profissional.
Talvez estender um pouco mais não seja um mau negócio.
Eu achava que deveria haver uma possibilidade, talvez até
ligada a universidade, de empresa...como é que o pessoal
chama? Ana Fernandes - Empresa Júnior...
Fabiano Xavier - Empresa Júnior, escritório
modelo! que permitisse ao pessoal uma prática mais
qualificada. Que não houvesse essa ruptura tão
grande entre a arquitetura praticada na Universidade, que
às vezes peca pela falta de vínculo com a realidade
nua e crua, e que acaba caindo no colo do pessoal quando sai
da faculdade. Talvez abdicando de tudo que aprendeu na faculdade
e se dando conta de que para conseguir ganhar a vida tem que
entrar no esquema, modelo, de reproduzir as coisas. Então,
tem essa transição que me parece muito complicada
para quem está saindo. Ana Fernandes - Do ponto de vista da sua experiência,
que teve uma formação na França, como
se dá essa passagem? Havia mecanismos que fazem essa
ponte ou não?
Fabiano Xavier - O próprio Bernard Huet me falava
: "escola de arquitetura boa, não existe nenhuma
no mundo". Ele deve saber porque fundou uma, dava aula
em mais duas ou três, então ele diz que existem
as "menos piores". Uma coisa que falta no Brasil
que sustenta um pouco o exercício do récem formado
na França é o concurso. Você tem possibilidade.
Eu diria que são duas coisas que possibilitam o exercício
crítico do recém formado na Europa: o concurso
público e o seguro desemprego. Ana Fernandes - Isso é bastante importante...
Fabiano Xavier - Você está de "OK",
vai lá, trabalha três quatro meses no escritório
do seu ex. professor, de um Jean Nouvel da vida. Depois nos
outros três quatro meses vai investir em você,
em um concurso público, vai receber seu seguro desemprego,
não vai morrer de fome, existem os convênios
universitários, as ONGS e outros tipos coisas que permitem
um relação com o mercado. E o concurso, que
é básico. Não pensando que o concurso
na Europa não tem marcação, pois é
obvio que tem. Para você participar de um concurso na
Europa já é muito complicado, mas tem sempre
uma possibilidade... Aqui a prática do concurso é
muito pouca, o que a gente tem é a famosa licitação,
que não é o concurso, que é por menor
preço, que é uma excrescência também... Ana Fernandes - Há concursos sendo propostos.
Fabiano Xavier - Mas é muito pouco...Então
eu vejo a questão do concurso. Agora o recém
formado só tem como participar no seio de uma pequena
cooperativa de estudantes. Dessa forma eu vejo possibilidade
de uma arquitetura mais engajada, mais direcionada. O "cara"
que saiu da faculdade com vinte e poucos anos tem até
os trinta para adquirir uma certa autonomia pessoal. A não
ser que constitua família... Um professor me disse
assim: "não tenha filho antes dos quarenta, porque
arquitetura é uma amante exigente". Mas é
uma grande verdade. Quem constitui família tem dificuldade
de desprendimento que é o exercício de ter um
filho. As próprias ocasiões se apresentam, por
exemplo: de repente ir para "não sei aonde!"
A mobilidade é muito importante na arquitetura. Ana Fernandes - Em 2000, os dados do CREA mostram que
89% dos arquitetos da Bahia estão na região
metropolitana de Salvador e apenas 11% no resto da Bahia...
Fabiano Xavier - Pegue a lista telefônica que
você vai encontrar um escritório de arquitetura
em Porto Seguro, Ilhéus deve ter uns dez, que cobrem
a região toda. Evidente que tem os que não estão
na lista telefônica, mas existe um mercado grande no
interior. A Bahia é muito centralizada em Salvador.
Todos os projetos de urbanismo, de Plano Diretor, é
tudo feito em Salvador, porque a contratação
se faz aqui. Não adianta você estar em Vitória
da Conquista se o Plano Diretor é contratado em Salvador.
Isso porque o poder político está aqui! Às
vezes até o prefeito da cidade do interior mora em
Salvador, então tem essa questão... Eu acho
que falta dinâmica econômica ao estado da Bahia
para poder gerar trabalho para arquiteto. Ana Fernandes - Agora, como você diria que está
a divisão do trabalho de arquitetura na Bahia hoje?
Você estava dando o exemplo de sua amiga em São
Paulo, com escritório de paginação...Na
Bahia continua aquela coisa mais tradicional : do arquiteto,
escritório, que resolve um conjunto de coisas, mesmo
que mal, a subcontratação está ganhando
peso...
Fabiano Xavier - A subcontratação informal,
não a sub contratação especializada.
eu conheço muito pouca gente, eu acho que é
um mercado...eu
conheço pessoas que estão muito bem, que trabalham
com nichos muito específicos. Olavo Filho, por exemplo,
não só pela herança profissional do pai,
mas ele não trabalha só com acústica,
trabalha também com projetos complementares... é
um nicho pequeno... Existe alguns nichos, mas não nessa
questão empresarial, as pessoas não partiram
ainda em Salvador para investir nesse serviço qualificado.
Porque aqui na Bahia há uma grande dificuldade de se
pagar serviço qualificado. Ele até paga, mas
contrata em São Paulo e não tem volume. O "cara"
que trabalha apenas com essa atividade, ele não vai
Ter volume para manter uma estrutura funcionando. As empresas
especializadas em Salvador, inclusive os escritórios
de arquitetura atuam no Brasil todo. Por exemplo, a CITÉLUZ
atua, porque é a vocação dela atuar nacionalmente,
mas por exemplo o André Sá atua no Brasil todo.
Vários escritórios, o próprio Fernando
Frank atuava muito em São Paulo. As próprias
construtoras baianas atuam fora, porque só mercado
da Bahia não resolve. Tem o mercado de Sergipe. A presença
dos arquitetos de Salvador no mercado de Sergipe é
muito forte. Então, eu não vejo essa opção
de mercado em Salvador, pela não tendência de
remuneração. Não cabe no orçamento
das empresas nem no bolso do comprador baiano. A renda média,
da classe média baiana, ainda é muito inferior
a média das outras capitais, apesar de que a renda
da classe alta da Bahia ser muito alta. Ela se equipara a
renda da classe alta de São Paulo. Tanto que a gente
vende imóvel no padrão alto, se constroem casas... Ana Fernandes - Você não acha que isso
pode vir a acontecer em Salvador? Ou seja, ter um lucro maior
pelo grau de concentração que tem a economia,
o que leva uma situação onde, em vez de remunerar
bem o serviço, as empresas acabam dominando o mercado
de tal maneira que aumenta em muito o lucro delas em detrimento
da qualidade do produto que esta sendo feito.
Fabiano Xavier - E aumenta o lucro até como
posição de auto defesa, porque como há
períodos de inconstância, se o lucro for normal,
quando ele tem problema de constância, ele entra em
problema de fluxo de caixa. Isso é uma verdade. As
margens de lucro aqui, não de arquiteto, pois eu nunca
vi arquiteto cobrando lucro, a grande maioria cobra hora de
trabalho, a noção de lucro lhes é estranha...
Nenhum dos arquitetos tem por objetivo: Ter empresas que dão
lucro, eles tem por objetivo: Ter empresas que garantam a
subsistência. Isso é um absurdo, porque o objetivo
é que as empresas dêem lucro, inclusive as de
arquitetura. Eu acho que isso é uma coisa que falta
na formação universitária. Você
não forma pessoas para se inserirem na lógica
do mercado. Mas o pessoal é muito desemparelhado para
entender o que é um diferencial de preço, o
que é formação de custo, o que é
fluxo, como é que faz. Por isso que eu vejo o pessoal
às vezes fazer proposta, que o cara vai trabalhar de
graça. O pessoal não sabe fazer contrato, trabalha
com contrato tipo, vai pegar o modelinho do IAB para fazer
contrato. Tudo isso é muito pernicioso para o pessoal
que vai sair da faculdade. Todo ano saem 30, 40, dos quais
5 talentosos para o mercado explorar! E esses meninos vão
demorar o quê? Três, quatro anos para perceber
que vão ser explorados. Ana Fernandes - Mas de qualquer maneira eu acho isso
um pouco parte da formação. Aí você
já está fora da escola...
Fabiano Xavier - É o que a gente chama na França
de Tempo de Negro, (Nègre), escravo de escritório.
È o desenhista. Existe a lógica do escritório,
que é o cara que domina o fazer, a técnica do
fazer arquitetônico, e que sabe que o arquiteto que
sai da faculdade não a domina. Existe um pensamento
subliminar que isso também se cobra. E isso se cobra
como? Já que você vai aprender comigo para depois
ser meu concorrente, eu vou te pagar pouquinho, pouquinho,
pouquinho... Essa é a lógica da troca. "Você
vai passar por aqui". Por isso que a rotatividade é
muito grande em alguns escritórios. Nos escritórios
maiores tem essa tendência em Ter três, quatro
coordenadores e uma equipe que é rotativa. Que é
o autocad, que facilitou muito isso. Eu pessoalmente acho
o CAD um nivelamento por baixo. A representação
gráfica antes era um diferencial. Você tinha
o arquiteto que tinha um belo traço, que tinha facilidade
da representação gráfica. Fazia parte
das ferramentas do discurso a representação
gráfica. O autocad trouxe tudo isso para o padrão
insípido. Agora com essas ferramentas de renderização...mas
a renderização é um negócio insosso.
Quer dizer, essa diferenciação, foi embora.
Todo mundo passou a ser igual perante o auto cad. Todo mundo
recebe igual, recebe pouco. Porque para desenhar, paginar
piso, fazer off-set, ponto trinta, ponto trinta, ponto trinta,
qualquer macaquinho treinado faz. Quando o macaquinho se encher
é só pegar outro macaquinho treinado e colocar
no lugar.
Na Europa, vários professores tinham informatizado
os escritórios. E da última vez que eu estive
na França, no ano passado, estava todo mundo "desinformatizando",
voltando para prancheta porque eles perceberam o tempo que
se perdia com o desenhar, e quanto isso roubava do tempo da
concepção. Então eles voltaram para o
essencial da atividade que é desenhar. Existe uma figura
que não existe no Brasil que eles chamam de "escritório
de pilotagem de obra", que na realidade é um escritório
de coordenação de obra, que vai fazer essa copilação
dos diversos projetistas sob a coordenação do
arquiteto. Então o pessoal voltou para o essencial.
Essa parte de trabalho de massa, de autocad, de superposição
de plantas, de layers...foi para um executor na realidade.
Algumas construtoras aqui na Bahia também começaram
a fazer isso, dentro das próprias obras. O engenheiro
faz uma parte do trabalho do arquiteto. Isso são atividades
acessórias. Na França isso é muito exercido
pela formação de técnico, ou as pessoas
que tem o curso de arquitetura pela metade. E as pessoas retornaram
ao desenho manual, tirando os escritórios muito grandes,
que têm estrutura. Mas mesmo nos escritórios
muito grandes, eu continuei vendo as pessoas trabalhando com
maquetezinha de papelão, papelão de sapateiro,
balsa, usando os meios normais da arquitetura, o croquí... Ana Fernandes - Realmente parece muito complicado o
CAD...
Fabiano Xavier - Eu tenho horror!!! Arquiteto que faz
croquí em autocad é... Ana Fernandes - É muito mais simples fazer a
mão, não?
Fabiano Xavier - E o AutoCAD não acompanha a
velocidade de lançamento de um croqui. O pessoal não
utiliza instrumento apropriado. Pouquíssimos lugares
trabalham com caneta gráfica, com mesa digitalizadora.
O pessoal trabalha mesmo no mouse. E as nossas meninas todas
candidatas ao LER, aos 25 anos com problema de articulação
no pulso, no braço, no pescoço, deslocamento
de vértebra... Porque passam horas no autocad, para
fazer o que se faz na prancheta em cinco minutos. Porque não
interessa a precisão do autocad para determinadas fases
Do projeto. O Autocad te constrange a uma precisão
inicial que é absolutamente desnecessária, não
tem nenhum sentido. Ana Fernandes - Eu trabalhei agora com um menino fazendo
trabalho final. Era uma maravilha. As imagens ficaram num
processo bem legal. Ele fez tudo na mão, depois, ao
definir tudo ele foi para o autocad. E aí ele pode
reproduzir muito rápido, podendo mudar qualquer coisa...
Fabiano Xavier - Uma coisa interessantíssima,
na França se usa muito a xerox como meio de projeto,
meio de produção, principalmente a xerox em
vegetal com colagens e montagens sucessivas. Você usa
aquilo e vai tirando xerox do vegetal...e você assume
aquela distorção, porque naquele momento do
projeto pouco lhe interessa isso, permitindo também
essa multiplicação de plantas. Eu estou a algum
tempo sem ver o nível do pessoal que sai da faculdade.
Esses últimos contatos, tanto o Marcos, como o Adriano,
talvez não representem a média do estudante.
Eu fiz algumas seleções quando trabalhava com
Fernando. Olha o caso : eu coloquei um anúncio no Jornal
A Tarde para contratar arquiteto para o escritório
de Fernando Eu tive quase 50 candidatos, e eu contratei um
desenhista pelo salário do arquiteto. Ana Fernandes - Você precisava de um desenhista?
Fabiano Xavier - Não, precisava de um arquiteto.
Como só apareceram desenhistas... Eu contratei um desenhista
que era mais arquiteto que os outros desenhistas todos. Faltava
ao pessoal o discurso de arquiteto. faltava o aparelhamento.
Eu vejo muito isso, eu sinto falta no que eu pude conviver
na minha época de estudante. Primeiro falta uma certa
cultura geral de arquitetura. O pessoal não conhece
o básico, história da arquitetura, dispositivos
do projeto...Conhece o maneirismo do projeto, mais o formalismo.
Mas não entende porque aquela solução.
Então é difícil a discussão teórica
dentro do escritório. Já por exemplo, eu tive
três arquitetos argentinos trabalhando comigo lá
no Fernando, e é um pessoal que senta com você
na frente de um projeto, e "tem suco para espremer"
você vai longe na discussão. As vezes nem chega
num consenso, mas tem matéria. E o pessoal daqui fica
muito restrito. Por exemplo, a literatura especializada do
dia a dia, que é AU e Projeto, de repente você
vê o pessoal falando desconstrutivismo...não
dá para falar de desconstrutivismo. Eu vi um aluno
que teve a infelicidade de falar que tinha feito o trabalho
com a intenção de criar um efeito barroco. O
professor respondeu que barroco era muito interessante mas
não era para ele, você não sabe nem o
bêabá ainda para ficar fazendo prosopopéia.
Primeiro vá aprender o alfabeto, vá aprender
a fazer uma frase com verbo sujeito, predicado, complemento.
Depois você vai escrever um texto correto... E quando
você tiver tudo isso, pode começar a pensar em
um procedimento barroco ou outra coisa. E acrescentando o
desconstrutivismo... quer dizer o pessoal quer desconstruir,
mas nem sabe construir direito, então fica difícil
você derrubar uma categoria que você não
domina. Por exemplo, o livro do Ching, dos conceitos básicos
da arquitetura... o arquiteto que não domina pelo menos
aqueles conceitozinhos básicos de justaposição
e que não conhece os exemplos históricos daquilo
fica difícil você conversar. Aquele livro eu
acho fantástico, devia ser livro de cabeceira de estudante
de primeiro ano. Como é que são esses dispositivos,
como se valem, como foram utilizados? Foram utilizados da
mesma maneira, a mesma categoria composicional foi utilizada
na renascença e foi utilizada recentemente por outro
arquiteto. Essa compreensão não tem nada haver
com estilo, escola...
Interessante é que a gente nem tem os manuais de arquitetura
do Brasil. Na Europa você tem os grandes manuais. Até
as restrições de escolas, vanguardas ou não,
os vocabulários, etc. Eu tinha um professor que orientava
os alunos a personificar um arquiteto, e nessa história,
o cara tinha que correr atrás. Para entender como é
que o pensamento do arquiteto se construía. E ele não
aceitava você fazer vários... a não ser
que fossem até o fim.
Lá no Fernando, interessante, houve uma época
que a gente tinha uma equipe: era eu, com minha formação
européia, tinha o Marco Antônio Pinheiro, que
trabalhou muito tempo com Niemeyer, foi braço direito
de Lelé, Zé Chaves que trabalhou com o Zanini,
os dois argentinos, o pessoal da Bahia... era uma equipe de
conteúdo. Mesmo que o dono decidisse tudo no final,
a gente tinha a liberdade de propor. Quando não tem
esse embate dentro do escritório, o produto sai todo
igual... e para fazer produto igual com autocad é só
trabalho reprodutivo, as pessoas já tem até
banco de projeto pronto. Para fazer o apartamentozinho de
dois quartos nem se dá ao trabalho de ver a orientação
do terreno. A arquitetura do lote, vai pegar os recuos, colocar
uma rampa de garagem, colocar o aviãozinho que é
aquele que tem uma azinha para cada lado, ou então
o H. E vai fazendo projeto, levando para prefeitura...e o
pessoal raciocina em m².
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